A primeira série original brasileira da Netflix chegou ao seu ano final. Entre erros e acertos, 3% abriu um leque de possibilidade para o mercado nacional e colocou o Brasil na mira dos executivos do canal de streaming para novas produções.

O último ano cumpriu muito bem o seu papel de uma série que veio em uma crescente em suas quatros temporadas. O que começou somente com um potencial foi ganhando forma (e recursos) para contar uma história coesa e interessante.

A história distópica entre Maralto e Continente teve seu fim, encerrando não somente a série, mas finalizando as jornadas dos seus personagens, fechando arcos e abrindo outros. Sim, pois a quarta temporada teve um final bem aberto, fugindo do clássico final feliz, o que parece ter sido um grande acerto.

Terminamos a terceira temporada com Marcela (Laila Garin) presa na Concha e seus moradores tentando reerguê-la. E as consequências dessa prisão resultou em uma visita diplomática até o Maralto, com o objetivo de negociar o fim do processo e a volta da comandante aos 3%.

O que os maraltenses não imaginavam é que os cinco que foram até o seu território tinham um plano perigoso de soltar um pulso e destruir a tecnologia do Maralto. E assim se seguiram os primeiros quatro episódios da trama, com planos sendo mudados por forças maiores e a falta de comunicação sendo um grande empecilho.

A série se aproveita dessas ironias do destino para trabalhar críticas sociais importantes, bem como uma reflexão acerca de suas origens e personalidades. A mensagem fica clara quando vemos que até as relações mais poderosas possuem altos e baixos difíceis de prever.

É interessante também ver que as coisas não são tão perfeitas no Maralto como se prega. Lá a felicidade não é algo rotineiro e mostra a hipocrisia presente no lugar em retratos de cidadãos perfeitos por fora, mas completamente perturbados por dentro.

O grande problema da série continua em certas atuações e diálogos. As coisas por muito vezes parecem engessadas demais, com momentos de apelação e frases prontas e clichês. Apesar disso, nem todas as atuações são de se jogar fora, e algumas ganham força no final, como a de Xavier (Fernando Rubro), que combinou muito mais com um revoltado do que com o menino bobo que conhecemos.

De fato, a jornada dos personagens é algo muito mais interessante de se assistir e aqui cito alguns. O primeiro deles é Marco (Rafael Lozano). Nas críticas passadas eu salientei que não entendia o retorno do personagem para a série, mas seu arco de crescimento foi muito importante e teve um dos finais mais bonitos da série. Toda sua trajetória como Álvares, não passar no processo, ser da milícia e ter um filho fizeram com que o personagem se perdesse por muitas vezes, tendo se encontrado e se reconhecido no meio do apocalipse que se encontrava o Maralto. Cenas poderosas cincurdaram seu arco final, com uma participação poderosa de Ney Matogrosso interpretando seu avô.

Outra que cumpriu seu papel, mesmo com algumas ressalvas, foi Michele (Bianca Comparato). Seu fim foi algo esperado e que conseguiu unir mundos que nunca teriam se cruzado antes de sua sede de vingança. Glória (Cynthia Senek) foi quem mais brilhou, com uma personagem de uma dualidade incrível, que por muitas vezes precisou escolher entre ter um futuro melhor e ajudar o coletivo, enfrentando uma batalha interna difícil de assimilar.

O que me incomodou por muitas vezes com Joana (Vaneza Oliveira) foi que sua história estava pronta para ser contada, e era uma das mais interessantes, mas por algum motivo não funcionou. Pela primeira vez pudemos ver uma Joana vulnerável e perturbada, mas que não se deixava mostrar completamente esse lado. Sua busca por amor e afirmação a colocam num momento individual pela busca de sua família biológica, que não tem desfecho e é rapidamente deixado de lado na trama. Confesso que isso me incomodou.

Após todo esse plot de fim do Maralto e dos processos, a série encontra um forte problema de ritmo. É que 3% se propõe a contar como a população está se virando, agora toda junta no Continente e o que poderia facilmente render uma nova temporada, se resume em 40 minutos.  Além do encerramento das histórias, a série tenta iniciar novas narrativas, que claramente não tem tempo para serem trabalhadas.

Preciso fazer um adendo sobre pontos muito positivos da série que melhorou seus efeitos visuais, bem como figurinos e categorias mais técnicas. Porém a grande força com certeza fica com a trilha sonora, com músicas fortes, interpretadas divinamente e que nos fazem traçar conexões daquele mundo distópico com a realidade que vivemos.

3% encerra assim sua trajetória com um saldo mais que positivo, uma crítica social bem presente e velada e uma força que nem os mais crédulos contavam. Abre espaço para novas histórias e mostra que o mercado brasileiro vale sim a pena!