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Assista ao trailer: Você | Trailer 2 [HD] | Netflix
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Quando You foi anunciada, a gente já sabia que era uma adaptação do romance da Caroline Kepnes que possui o mesmo nome. O que se imaginava também, principalmente depois da divulgação do trailer, era que a série fosse uma mistura de Gossip Girl e Pretty Little Liars, não só pela presença de atores do elenco principal de cada série, e sim por toda a arquitetura da história em si, mas sobre isso vou falar mais à frente...

You, nos apresenta Joe Goldberg, o Peen Badgley de Gossip Girl, como um gerente de livraria que de um dia pro outro, conhece Guinevere Beck (Elizabeth Lail) e se apaixona perdidamente, transformando isso em uma obsessão que envolve toda a vida da garota, incluindo TODOS aqueles com quem ela se relaciona.

A premissa da série se concentra no Stalker em si e em tudo que ele, como protagonista, que aqui também é o grande vilão, irá fazer para cercar a vida de sua vítima. O curioso é que, de uma forma geral, não dá pra se identificar com o personagem em si. Suas ações o caracterizam como um perigosíssimo sociopata que não é lúcido quando se trata do objeto principal de sua obsessão. Os pensamentos de Joe são escancarados e isso funciona pra nos aproximar do personagem e pra tentar entender como sua mente reage e maquina as coisas que irão acontecer. No entanto, isso não humaniza o personagem, por mais que o roteiro tenha essa intenção, ao mostrar aos poucos o porquê Joe provavelmente é assim ao apresentar alguns flashbacks de como foi abusado durante sua infância e adolescência pelo antigo dono da livraria que o tinha como um “filho”.

Além disso, sua relação com seu vizinho, o menino Paco (Luca Padovan) que tem uma família problemática, mostra que o personagem aparentemente se importa com uma situação que vai além da sua obsessão atual por Beck.

Beck porém, não é uma vítima fácil de se apegar. A personagem tem sim uma certa destreza em suas ações, mas no geral parece mais uma presa fácil e seu plot pessoal e a forma como a personagem lida com ele, também não ajuda a nos afeiçoar, ao menos não de primeira.

O forte da produção é toda a construção em cima do roteiro, que na verdade não é tão complexo assim, mas consegue nos apresentar algumas camadas e maneiras interessantes, pois aqui o que importa não é o que é revelado e sim, como isso é feito. Essa foi a condição que acabou dando um diferencial a série, mas só dá pra entender isso quando se termina os 10 episódios. Antes disso, dá sim pra encontrar semelhanças com outras histórias , inclusive com as duas séries citadas lá no começo. Desde a ambientação em Nova York, até toda a trama de mistério que atravessa um pouco de drama com adolescentes que bebem demais e que são obcecados uns pelos outros e finalmente um stalker obsessivo que usa as ferramentas da tecnologia pra conseguir o que quer.

 A personalidade da série está no produto final, pois é quando o espectador descobre que toda aquela construção serviu de fato para um desfecho (ao menos dessa primeira temporada) que ficou a altura da proposta da série e talvez até mais que isso. O roteiro dos últimos episódios consegue prender e fazer o espectador passar do susto ao medo e vice-versa. O último episódio “Bluebeard’s Castle” escrito por Sera Gamble e Neil Reynolds e dirigido por Marcos Siega é forte e consegue entreter o suficiente para a necessidade de uma continuação, que já está confirmada inclusive.

Por fim, além da ótima construção do clima de mistério, o outro fator que ganha muito destaque é a fotografia da série, que apesar de ser ambientada em Nova York, passa um clima vintage e tenebroso da cidade e encontra sua relação direta com o roteiro em algumas cenas em específico, como por exemplo quando Joe está na livraria no episódio piloto e conhece pela primeira vez seu possível futuro "amor eterno". A forma como a câmera se posiciona de frente a entrada da livraria representa a perspectiva do olhar do personagem a espera de uma nova presa indefesa. Tudo isso contribui para uma ótima construção de identidade do produto, que consegue se autorreferenciar, mesmo estando ainda no seu primeiro ano.

You, é uma produção que traz um bom mistério, com uma roupagem interessante, atual e até mesmo elegante pra uma série YA (Young adults). Com um final que apesar de algumas obviedades, consegue sim surpreender. Mesmo que você não consiga se identificar ou torcer surpreendentemente por exatamente NENHUM dos personagens, dá para se prender à produção pela forma como tudo se encaminha e por fim alcança um ótimo desfecho.