Uma premissa diferente e incomum deixa de ser somente isso quando está relacionada a uma boa história. Aliás, quando a trama e a narrativa seguem o mesmo nível de qualidade, ficamos de frente a um produto com um alto nível de entretenimento em todos os sentidos. 

Isso é exatamente o que acontece em Calls, a nova série da Apple TV+

A produção é baseada na série francesa originalmente de Timothée Hochet e na nova versão possui autoria de Fede Álvarez. A premissa conta a história de como um possível evento catastrófico de prováveis proporções mundiais, relaciona várias pessoas aleatórias ou não necessariamente. O grande porém aqui é que tudo isso é contado por meio da descrição do áudio de ligações telefônicas e também efeitos abstratos na tela enquanto a narrativa prossegue ao longo do episódio. Toda a construção do universo apresentado se dá somente por meio dessas ligações, que são descritas na tela à medida que tudo vai acontecendo. Não temos imagens dos personagens, apenas os conhecemos pelas suas vozes e pela descrição em tela de quem está falando.

É evidente que essa maneira de contar uma história através das mídias de comunicação sem se utilizar de imagens propriamente ditas não é exatamente uma completa novidade, as radionovelas por exemplo, estão aí no próprio Brasil e na América Latina desde o século passado…

Mas o que tem de tão interessante em Calls que nos faz prestar atenção em uma produção que foge do convencional atual? 

É exatamente pelos traços convencionais que aparecem, porém de uma forma diferente. Temos aqui, uma incrível construção de suspense e de personagens também. No entanto, ainda que isso pareça até impossível, a construção de universo é o que mais se destaca, justamente por ser feita de uma maneira não tão usual. Em um mundo onde os podcasts estão crescendo cada vez mais, incluindo aqueles onde histórias ficcionais são apresentadas (não que isso também seja uma completa novidade), Calls representa uma forma criativa de contar uma boa história.

Ou seja, não estamos falando de algo que se define como incomum somente pelo buzz, e sim exatamente pelo contrário, a produção é intrigante exatamente porque possui essa natureza. A forma como a trama e a narrativa geram ansiedade no espectador é forte e construtiva porque não conseguimos ver exatamente o que está acontecendo. Assim como em Tubarão (1975) ou A Bruxa de Blair (1999), filmes que nunca mostram de fato as ameaças que literalmente os denominam, Calls é certeira em tentar e conseguir nos passar emoções baseadas em um produto bem estruturado em sua narrativa e sem distrações. O fato da gente não ter uma noção visual direta do que está acontecendo, nos deixa ainda mais aflitos porém nunca perdidos. Essa é a genialidade aqui, a trama é tão bem amarrada e contada que não ficamos desorientados, não precisamos voltar para ter certeza. Tudo é bastante claro.

Elementos cinematográficos como sonoplastia são bastante presentes e semeiam a todo tempo o clima de tensão crescente a medida que os episódios avançam. Mesmo que as histórias acabem se conectando, o roteiro não as tornam repetitivas e sim construtivas em geral, o que se concretiza com os ótimos capítulos de conclusão.

Em nove episódios, são apresentadas tramas singularmente coesas e que de alguma forma relacionam-se entre si. Temos atuações entregues e que conseguem se encaixar perfeitamente dentro da premissa. Nomes como Pedro Pascal, Lily Collins, Clancy BrownJoey King e Aubrey Plaza são alguns dos que aparecem ao longo dos capítulos. Um dos destaques, porém, está no episódio 2, “The Beginning”, protagonizado por Aaron Taylor-Johnson (Mark) que apresenta uma história destacável e que ao mesmo tempo consegue se conectar perfeitamente à construção geral da série, assim como seu possível subtexto.

A prova que tramas verdadeiramente eletrizantes sobrevivem muito bem em qualquer construção de mundo possível ou impossível se encontra nessa produção. Ainda que seja um remake de uma série francesa, a ideia geral de Calls é a confirmação de que ainda existe criatividade na indústria e que boas histórias só precisam ser contadas do jeito certo.