Muitas vezes o prazer está muito distante de qualquer senso de avaliação. A sensação de ver algo que nos interessa por algum motivo que não sabemos qual, é o que importa e isso não tem a ver necessariamente com falta de qualidade ou não. Na verdade, a junção de tudo é o que caracteriza uma obra que consegue chamar atenção, mesmo com percalços significativos pelo caminho.

Control Z é a nova série criada por Carlos Quintanilla para a Netflix e possui muito potencial para se tornar uma nova obsessão para o seu público. Basicamente, um hacker misterioso invade o sistema da escola e começa a revelar o segredo de todos, porém a estudante Sofia Ana Valeria Becerril que possui um certo “dom” em observar as pessoas, começa a sua caçada quase pessoal para saber quem está por trás disso tudo, com a ajuda do aluno novato, Javier que é o Michael Ronda (Soy Luna) e claro, por medo de ter um grande segredo pessoal revelado para todos.

Inicialmente a montagem da série pode ser vista como estranha e até um pouco diferente das últimas produções com temáticas parecidas. A produção, focando no figurino e caracterização dos personagens, passa uma sensação de evolução positiva do que é apresentado no primeiro até o último episódio, e não fica claro se foi intencional ou não. A construção de universo também não tem lá suas grandes novidades e consegue forçar um pouco a barra passando a impressão que possui a pretensão de subverter o gênero, ao contar como é a visão do excluído no ambiente escolar, com uma cena específica que inclusive remete muito ao filme, Meninas malvadas, que já tinha feito isso lá em 2004, de um jeito mais inteligente e bem humorado. 

No entanto, mesmo na sua esquisitice, a produção consegue chamar atenção de uma forma positiva tanto pela despretensão como pela falta de medo em abordar temáticas mais sérias e como elas estão inseridas nesse mundo de uma forma que muitas vezes e infelizmente pode ser vista como normal. Assuntos como transfobia possuem um bom destaque, mesmo que alguns problemas ofusquem um pouco a importância de sua abordagem. Por exemplo, em uma cena no banheiro, a personagem Isabela Zion Moreno sofre preconceito e quando, Alex Samanta Acuña, uma outra aluna do time dos excluídos e também lésbica, a defende, acaba ganhando de presente um discurso que depois da frase “Eu não preciso que você me defenda”, chega no, “Não preciso da militância LGBT, nós somos diferentes”.

É importante frisar que a personagem de Zion era considerada a Queen B da escola, antes de ter o seu grande segredo revelado. Por isso, é natural que tenha essa reação e até aí, tudo bem. Isso seria facilmente resolvido no futuro com uma aproximação inevitável entre as duas, visto que Isabela também se torna uma excluída. Porém, em uma cena mais pra frente, elas voltam a se falar e Alex diz a Isabela que a mesma estava certa por pensar assim e elas começam uma amizade. O que não faz o menor sentido, não a amizade exatamente, mas a posição de inferioridade que ela se colocou.

Outro ponto controverso, é a forma como o roteiro lida com questões mais pesadas como: auto mutilação, estupro, bullying, homofobia e até mesmo algumas sugestões de pedofilia, essa última de forma completamente gratuita por sinal, principalmente quando a narrativa avança e descobrimos mais coisas. Todas essas temáticas, principalmente a primeira e a última, não são apresentadas de uma forma muito responsável. Ao menos, não vi nenhum aviso anterior a série sobre possíveis gatilhos para pessoas com problemas psicológicos que podem vir a acompanhar a série. Algo que aconteceu com 13 Reasons Why, por exemplo. 

Ainda que a classificação indicativa seja para maiores de dezoito e o fato da linguagem geral também envolver um traço mais cômico, essas questões mais fortes e dramáticas possuem grande destaque na trama e poderiam ser mais bem trabalhadas nesse ponto de lembrar que estão falando de coisas delicadas em uma série que provavelmente vai chamar atenção de um público jovem.

Contudo, quando levamos em conta apenas a trama e todas essas situações, principalmente dentro de uma das temáticas principais que é a invasão da privacidade, a produção ganha muito, com bastante ritmo e também pelo fato dos episódios terem uma curta duração. Não temos fillers aqui e isso é muito importante. A trama se torna instigante e torna a série uma produção perfeita para fazer maratona.

Ana Valeira como a intrigante Sofia, consegue fisgar com um carisma que vai se revelando aos poucos e faz a gente entender o quanto a personagem é forte e porque ela é a protagonista em meio a tanta gente também interessante. Macarena García também chama atenção com Natália, uma menina ambiciosa que não possui muitos escrúpulos pra conseguir o que quer e aqui, consegue um dos destaques para o antagonismo da história.

De resto, as atuações são interessantes, com menções honrosas para Pato Gallardo que faz o Gerry e Luis Curiel que interpreta Luis.

No mais, Control Z, apesar de uma construção geral um pouco confusa e em alguns momentos, inconsequente demais, consegue passar uma mensagem importante sobre alguns dos temas principais que se propôs a tratar em seu enredo e de quebra, ainda traz personagens legais o suficiente para nos fazer querer acompanhar o resto da história. Com um final eletrizante, o próximo ano, que inclusive já está confirmado, parece uma continuação bem esperada.