ATENÇÃO: O TEXTO CONTÉM SPOILERS DA ÚLTIMA TEMPORADA 

A hora de dizer adeus chega para todos. Muitos vão dizer que 13 Reasons Why não merecia ter nem saído do papel ou passado da primeira temporada, muitos como eu vão entender os motivos de uma continuação, mesmo sendo indefensável. A questão aqui é que com tantos tópicos relevantes que eles queriam passar em tela, muitos pecados foram cometidos e a série perdeu o brilho que deveria ter.

A mente humana é uma loucura! E pudemos ver muitas de suas nuances nesses quatro anos. E definitivamente não é fácil falar de coisas tão complicadas e complexas como sentimentos que nos perturbam e nos tiram do sério. Continuo achando a série corajosa por isso.

Mas claro, isso não me dá o direito de subjulgar seus erros. Vejam, não sou psicóloga, não sei os impactos dessas cenas em mentes frágeis, mas posso dizer que foi uma série necessária para mim. Para levantar bandeiras e questionamentos internos. E me desculpem aqueles que foram direta e negativamente afetados pelo show. Espero que estejam em um bom lugar agora.

Voltando para a mente humana, essa temporada apostou com força no tema. Vamos lá, a terceira temporada terminou com o grupo de amigos encobrindo um assassinato. E se não bastasse tudo o que já tinham vivenciado, isso não é pouca coisa para fazer uma pessoa surtar de vez. E foi o que aconteceu com Clay (Dylan Minnette).

Para mim, o personagem sempre foi algo completamente aleatório na série, um enfeite, sem muita importância, que estava ali para juntar todo mundo, porém que ninguém simpatizava. Sim seu personagem era um saco, mas trouxe questionamentos importantes para o fim da série.

Se Clay passou despercebido por três anos, o show de atuação de Dylan Minnette nesta temporada não passou. Clay estava devastado, perdido e completamente sem sentido. Os primeiros episódios foram uma completa mistura de fantasia/ficção científica que se tornou a loucura da sua mente. Parecia uma outra produção e fiquei com medo que eles tivessem definitivamente perdido a mão.

Não era só Clay que passava por momentos difíceis, Zach (Ross Butler) também enfrentou momentos bem sombrios na primeira parte da temporada, mas o foco não estava nele. Porém tudo começou a mudar no episódio da simulação. E que episódio!

Uma hora de uma completa ansiedade sendo destilada em tela para no fim ser um treinamento para momentos de tensão. Que falta de empatia e que mundo é esse que vivemos ensinando jovens a se prepararem para morrer? Eu não consigo nem imaginar o que é passar por algo assim, imagina viver num estado constante de alerta e medo.

E com essa reviravolta a série conquistou uma narrativa precisa. O timing perfeito para trazer um episódio sobre a brutalidade policial e seu racismo (não tão) velado. Eram só adolescentes querendo voltar a normalidade no lugar que deveria ser um porto seguro para eles. E nem mesmo isso impediu policiais de usarem a violência e o abuso de autoridade.

Se em uma série adolescente como essa vemos cenas assim acontecerem, dá pra ter uma noção do que assola o mundo em protestos pelas vidas de minorias. Foi um belo de endorce ao movimento do Black Lives Matter, mesmo sem querer.

De qualquer forma, a série abriu sua última temporada com um discurso forte e importante, que nos levou a um final trágico e estranhamente triste.  A temporada teve um tom bem diferente das outras três, abriu mão das cenas fortes, cortou todos os explícitos, as vezes até deixando tudo meio sem sentido como na emboscada do Tyler (Devin Druid) que acabou em tiro e até hoje não sabemos em quem foi ou no acidente de Clay e Zach, onde os dois apareceram super bem, mesmo depois de quase morrerem. Muito foi apostado num suspense, muitas vezes desnecessário e exagerado, vide a constante aparição dos fantasmas de Bryce (Justin Prentice) e Monty (Timothy Granaderos), mas com certeza acertaram no tom dramático.

Porém, o que mais me incomodou em tudo isso foi toda a história da vingança de Winston (Deaken Bluman). Ele veio cheio de sangue nos olhos, se juntou ao Diego (Jan Luis Castellanos) para desvendar a verdade sobre a morte de Bryce, mas ao saber do verdadeiro culpado, simplesmente tudo acabou ali. A quarta temporada só existiu por conta desse plot, que foi praticamente ignorado por todos os episódios, mesmo sendo citados em todos eles. Foi meio frustrante, mesmo não querendo que mais coisas ruins acontecessem aos personagens.

E falando neles, talvez esse seja o maior acerto da série. Todos seus personagens são cativantes. Eles são os responsáveis pelo público que acompanhou essa história até o final. Era por aquelas narrativas e atuações que seguimos até um quarto ano cheio de dúvidas e ataques. E que bom que encontraram um cast a altura.

Dito tudo isso vou para minha última análise, aquele que foi o melhor personagem: Justin Foley (Brandon Flynn). Esse menino me conquistou desde a primeira temporada quando ainda era um simples babaca que ninguém entendia e crucificava. Que bonito foi ver toda a sua trajetória nesses quatro anos. Justin passou por poucas e boas, mas sempre teve uma essência boa, desde o principio. E justamente por isso que seu final acabou comigo.

Ele era o cara que tava se esforçando para mudar de vida, conseguir se livrar das drogas e seguir em frente. Ele perdeu a mãe, mostrou toda a sua vulnerabilidade e fragilidade e mesmo assim teve um final de sofrimento. Eu entendo a série tentar passar a mensagem que pessoas boas também têm finais ruins, mas quão dolorido foi ver aquele garoto definhar numa cama de hospital.

Tento ficar com as imagens boas dele e com a certeza de que ele se formaria, iria para a faculdade e continuaria a ter uma família que o acolhesse. Foi o maior acerto da série, a relação dele com Clay e o sentimento de tratar ele como filho que os Jensen tiveram. Foi bonito, tocante e inspirador. E valeu muito a pena por pelo menos demostrarem respeito a ele e deixarem metade do episódio para sua partida. A cena de despedida dos irmãos também foi de uma beleza extraordinária.

Essa temporada teve realmente poderosas cenas retratando racismo, a brutalidade policial e até mesmo um “mais certo” ponto de vista sobre a morte. Talvez por suas estúpidas soluções e problemas de roteiro pagou um preço muito caro para trazer importantes tópicos a serem debatidos.

De qualquer forma existe algo de muito forte em ver como as pessoas lidam com a dor e a perda de formas diferentes e como as enxergamos. Até porque ninguém ali foi 100% certo em nada, o que retrata muito o que vivemos na realidade. É difícil discernir e principalmente julgar quando olhamos os rostos e nos identificamos com a pessoa que está do outro lado. Corresponder expectativas talvez seja o que mais nos afunda em nossos ideais.

Termino isso aqui com uma frase do bonito discurso de formatura do Clay. “Até no pior dos dias, a vida é algo surpreendente”. Sigam com isso, permitam sentir a vida e derramar algumas lágrimas pelo caminho.