Com uma recepção um pouco morna por parte do público e um bom olhar da crítica especializada, Drácula, a nova série da BBC em parceria com a Netflix, chegou às telinhas com um roteiro ousado. E engana-se quem pensa que é "apenas três míseros episódios", são mais de quatro horas de show com bons diálogos e uma cenografia de encher os olhos, sem citar a interpretação de Claes Bang que particularmente é um dos pontos fortes da série.

Cada parte tem 90 minutinhos sem perder o engajamento, talvez o terceiro episódio incomode um pouco aqueles que desejam que o programa siga a linha da fidelidade dos antecessores, mas confesso que para mim não foi um problema, longe disso, vi aí um ponto super positivo, mas chegaremos nesse ponto.

O Conde Drácula é um personagem carismático, sexy, encantador... e a performance de Bang te entregará tudo isso de mão beijada, é uma relação de amor e ódio que teremos durante toda a série. Além disso, ele carrega no olhar vários mistérios, alguns que nem ele mesmo sabe que são verdadeiros e o programa te convida a conhecer despertando cada vez mais nossa curiosidade. Os diálogos são incríveis, impossível não ressaltar, os sotaques e até frases poéticas durante toda série, seguindo pensamentos um tanto quanto filosóficos, me lembrou levemente o que vimos em Penny Dreadful (2014).

É válido ressaltar que essa adaptação não é uma obra fiel a escrita por Bran Stoker, mas um novo conceito de Drácula. É uma história de histórias, sem essa coisa de conhecer de novo como tudo surgiu, algo que já vimos várias e várias vezes no cinema e também na TV. Enxerga-se algo autêntico, e até ousado por colocar em tela questões sociais como sexualidade, crenças, moral e por aí vai... Algo que merece sim meu respeito por parte dos diretores Mark Gatiss e Steven Moffat, os mesmos responsáveis por Sherlock.

Não vou contar aqui como a narrativa se desenvolve, mas vou citar pontos que reforçam que Drácula é uma série ousada, diferente e algo que pessoas que pensam fora da caixinha precisam assistir.  Por começar do arco de Jonathan Harker (John Heffernan) que é o personagem que faz nossa imaginação voar no primeiro episódio, que se entrelaça entre contos  e descobertas e é tão bem amarradinho até finalmente chegar na nossa amada e odiada, mas amada, Agatha Van Helsing (Dolly Wells), sim, nossa adorada "matadora de vampiros".

Na série Agatha também desperta curiosidades e é uma personagem de nível para debater com o Conde, e às vezes tão sagaz quanto, mas ela não está ali para caçar vampiros como conhecemos, ela é um ponto importante que nos ajuda a conhecer, questionar e questionar... Os dois primeiros episódios são incríveis e rodeiam o mesmo "universo", e porque falei "universo"? simples, o terceiro e último parece um desfalque, mas também nem tanto, até mais, a todo momento Conde Drácula revela suas pretensões de futuro, tanto para ele, quanto para Van Helsing. Achei válido sim mostrar como seria esse universo depois de mais de 100 anos. 

Desvendamos mistérios, e a medida que a narrativa vai avançando, mais pontos ligamos uns aos outros, e ficou tão legal essa pegada de Sherlock Homens que colocaram em Van Helsing. Crenças e mistérios são desvendados e acredito que a mensagem da season finale é tão profunda quando se imagina.

Desperta o ser, a moral, a ética e como as crenças podem criar nossos próprios demônios. E até mesmo o "próprio demônio" tem os seus. Van Helsing é apenas uma descrente neste novo mundo, descendente distante da nossa conhecida Agatha que vimos em meados de 1897 em na Transilvânia ainda como freira.

Consigo ela traz questionamentos sobre a moral e o ser, mas antes disso, conseguimos um ensinamento do próprio conde, sobre a alma, a essência. Aquilo que carregamos mesmo com o "corpo queimado", e que nem sempre as pessoas estão preparadas para carregar sua "casca". Elas (as pessoas) são ambiciosas e anseiam atenção do mundo para se sentirem felizes. 

Helsing por sua vez, desperta um sentimento de pena, ao relevar o grande segredo que Conde Drácula sempre temeu, ele que vinha de uma linhagem no qual arruinou com sua maldade. Por fim, o mérito da moral, e o fim das crenças caíram por terra, sobressaindo apenas o pensamento de dever cumprido com um último adeus.

Acredito que a mensagem que carrega a série seja bem mais profunda e passaria horas escrevendo sobre ela, mas quis explicar ao máximo o sentimento que a season finale me passou, sobre o sentimento da vida, da moral e do ser. Questões sociais que nos fazem refletir sobre nós mesmos, não baseadas em assassinatos, mas como de alguma forma os nossos "próprios demônios" nos prejudicam. E no fim da tarde só queremos descansar vendo o pôr do sol.

A série prepara um terreno de novas possibilidades mesmo sem proposta para uma segunda parte. Drácula finaliza muito bem e é sem dúvidas uma ótima pedida e premissa para novas produções, com bom roteiro e atuações incríveis. Uma nova forma de se falar sobre vampiros, algo bem saturado hoje. Nos aprofundamos em histórias e fechamos um ciclo bem amarrado e contados sem saturação. "Necessário, somente o necessário!"