Dizem que toda verdadeira Diva pop precisa de um documentário pra realmente se firmar como uma doce vítima da fama que traz seus bons e maus frutos.

A verdade é que Anitta, a estrela dessa produção, já era uma diva do pop e do funk muito antes de qualquer documentário. A cantora tem mostrado nos últimos anos sua ascensão no universo da cultura pop como um símbolo a ser seguido e admirado, como qualquer outro artista, tem seus problemas e contradições e isso é bem apresentado em sua nova série documental “Vai Anitta”, produzida pela Netflix e com a própria cantora como produtora executiva, esse último aspecto representa de fato o que seria a identidade do estilo desse documentário.

Em sua carreira, Anitta acabou se mostrando como uma figura que possui o controle e que mede cada passo dado, isso curiosamente relacionado a uma personalidade que aparenta uma graciosa espontaneidade e delicadeza. Não poderia ser diferente dentro dessa produção, sendo aqui, dividida em seis episódios que apresentam vários seguimentos do que foi o crescimento da carreira da cantora no ano de 2017 e uma parte desse ano.

 De primeira Anitta já revela:

2017 foi o ano mais importante para a minha carreira”.

Fica claro que, apesar desse ser um documentário sobre a cantora, é a sua carreira e o seu passo internacional no mundo da música que ganham o enfoque. O controle que Anitta exerce sobre tudo fica evidente a todo momento, tanto nas entrelinhas e a isso me refiro a forma como o próprio documentário foi montado e editado, como em tudo que é mostrado sobre o que vem acontecendo na carreira da cantora. Há uma firmeza que molda todo o processo, caracterizando Anitta como alguém que tem uma personalidade que engloba aspectos de uma verdadeira líder que não mede esforços para alcançar seus objetivos.

Não há nada exatamente de inovador sobre o documentário, temos entrevistas com os familiares, conhecidos e colegas de trabalho falando sobre quem é a cantora, por meio de histórias, fotos e lembranças que vão compondo uma personalidade que na verdade, por ser tão crua, todo mundo já conhece. A mãe de Anitta e seu irmão aparecem na narrativa junto a amigos como Arielle Macedo (dançarina) que apoiaram a cantora desde os primeiros e não tão satisfatórios momentos de sua carreira. Temos ainda bons momentos com Jojo Todynho, artistas internacionais como Rita Ora e J Balvin e a presença dos produtores internacionais que permite mostrar como Anitta consegue ser profissional e ao mesmo tempo apenas uma garota brincalhona que gosta de pregar peças.

Aqui se dá pra fazer uma relação com o que foi o documentário de Beyoncé em 2013 (Life is But a Dream) – uma produção sobre a vida pessoal e carreira da cantora que apesar de ser muito bem produzida, fica muito na superfície do que já conhecemos. O documentário de Anitta segue o mesmo caminho, justamente pela cantora ter essa veia controladora que também é compartilhada pela mãe da Blue Ivy. Terminamos a série, com a mesma pessoa que já conhecíamos, mas isso não é ruim.

Sim, somos introduzidos a vários momentos que poderiam ser considerados íntimos demais e por isso poderíamos humanizar mais a figura da cantora, porém com Anitta nada é tão demais, principalmente quando se trata de como ela se mostra dentro e fora das câmeras. Nos acostumamos com a imagem crua de um personagem que atravessou a criação de uma mídia justamente por crescer e ganhar a sua hegemonia, na era dos stories no instagram que possibilita uma espécie de editor pessoal que o próprio artista usa para promover a sua imagem.

Em um dos primeiros episódios, acompanhamos as gravações do clipe de “Is That for Me”, gravado na Floresta Amazônica e que fez parte do projeto “Checkmate” que foi o grande catalisador do início da projeção internacional da cantora e o protagonista da narrativa da maior parte do documentário. Como sendo apenas o segundo episódio, parece que a relação da cantora com o próprio documentário em si, não é tão genuína, mas só parece... É importante lembrar que esse foi o clipe mais criticado da cantora por causa dos figurinos excêntricos, no entanto, a todo momento no episódio, Anitta parece preocupada com os figurinos e não perde a oportunidade de perguntar se está bonito daquele jeito, ao que todos respondem afirmando cegamente e a cantora parece esperar uma resposta contrária, mas não a tem.

Episódios depois, já no lançamento do clipe de “Downtown” o terceiro clipe do projeto, gravado em Nova York com J Balvin é ao lado do irmão, em um momento de sinceridade, que a cantora comemora quando recebe a notícia sobre o figuro do clipe ter sido aprovado. “Ninguém falou mal do figurino!”, e lembra o quanto perguntou a produção e a todos sobre o figurino do clipe anterior porque duvidava que o público iria gostar e ninguém foi exatamente sincero com ela.

O Documentário ganha ainda quando entende que não precisa mostrar um novo lado da cantora e sim incrementar aquele que já conhecemos com novas, delicadas e principalmente importantes camadas da liderança exercida pela cantora em momentos cruciais de sua carreira. Em um momento, durante as gravações do clipe com J Balvin, Anitta se irrita com sua produção, pois sente que toda a responsabilidade está sob suas costas quando na verdade deveria ter mais ajuda deles, tudo isso em um discurso alto e severo com uma Anitta vestida do que aparenta ser um blazer, e uma lingerie sensual enquanto alguém está maquiando a sua bunda.

Nas gravações de “Vai Malandra” o último do projeto e o mais memorável junto a Downtown, em um dos momentos das gravações no Morro do Vidigal, Anitta percebe que tudo está dando errado porque as gravações começam a atravessar a noite sendo que o limite estabelecido era o fim da tarde, e toma a liderança, mais uma vez temos um momento de diretora/artista que é bem traduzido nas feições da cantora, quem em um mesmo momento passa de uma chefe séria para uma cantora de funk que precisa mudar sua expressão quando o diretor diz ação.

Por fim, temos aqui mais uma vez o que aparece em vários outros documentários do tipo, o fato da vida de uma pessoa como Anitta ser completamente conturbada e ainda assim não compreendida, pois a artista passa de um momento de completa veneração e gritaria, para um quarto de hotel, onde vai ficar sozinha por várias horas simplesmente pelo fato de que não pode sair dali, pois será reconhecida. A cantora fala também sobre quando se viu em uma depressão ironicamente em um momento em que tudo estava dando certo tanto em sua vida pessoal como profissional, mostrando finalmente um lado que não sabíamos.

Vai Anitta é uma produção controlada e que organiza a imagem de uma artista apenas no sentido editoral, pois Anitta em si já representa esse controle de sua imagem. Ainda assim, temos momentos onde conseguimos atravessar a superfície que representa a personalidade da cantora que é ao mesmo tempo, consistente e transparente como um bloco de gelo, no melhor dos sentidos.