play_arrow
Assista ao trailer: The Act: Trailer (Official) • A Hulu Original
videocam

A adaptação

Em 2016, uma repórter do Buzzfeed norte-americano, Michele Dean relatou em um artigo do então site famoso, uma história que chocaria o mundo inteiro. Dee Dee e Gypsy Rose Blanchard, mãe e filha se tornaram famosas nacionalmente nos Estados Unidos. Basicamente, pelo fato de que Gypsy era uma garota com inúmeros problemas de saúde desde que era um bebê e que sempre esteve sob os cuidados de sua mãe. As duas tinham todo um sistema de auxílio para o tratamento de todas as várias doenças que Gypsy supostamente tinha.

Em 2015, Dee Dee foi encontrada morta em sua casa enquanto Gypsy estava até então desaparecida. Algum tempo depois de investigações, Gypsy foi achada na casa do então namorado, com aparência saudável e bem diferente daquela que sempre foi conhecida.

A história deu origem a antologia “The Act”, produzida pelo hulu e com os showrunners como a própria Michele Dean e o roteirista Nick Antosca.

Com uma cena de abertura já focada no momento do possível crime, a série faz questão de apresentar seu primeiro paradoxo entre o início e o aparente final dessa história. Logo, somos levados aos anos antes do crime e apresentados a figura de Dee Dee (Patricia Arquette) e Gypsy (Joey King) enquanto dão uma entrevista para a TV. Nesse momento, já fica claro para o espectador qual o tipo de relação que estamos prestes a acompanhar.

O fato da história por trás do roteiro ser conhecida e em detalhes por praticamente o mundo inteiro, traz um grande diferencial no desenvolvimento dos personagens e da própria série. Todos já sabiam pela própria Gypsy da vida real, boa parte de seu sofrimento e como sua mãe realmente a tratava quando estavam a sós. Longe das câmeras de TV e dos vizinhos e médicos, Dee Dee era uma pessoa extremamente abusiva e que possuía algum tipo de obsessão excessiva com a atenção recebida pelas duas, devido ao fato de Gypsy ser “doente”, com isso, dava remédios e forjava todo tipo de prova para parecer que sua filha realmente possuía todos aqueles problemas.

O roteiro ganha pontos em revelar que a história é de fato sobre como essa relação se desenvolveu, e as atrocidades que já vemos desde o primeiro episódio são a prova disso. Os cortes para o presente, que contam os avanços da investigação, estão ali apenas como um recurso de continuidade para dar um sentido maior de resolução do caso e claro para provocar a dúvida e a vontade de assistir o próximo episódio principalmente para aqueles que incrivelmente, não conhecem a história.

Atuação e caracterização

Nesses primeiros dois episódios, a apresentação é bastante rápida no que se diz respeito ao entendimento das personalidades de cada personagem, ao menos daqueles que já possuem um foco e que também estão presentes no contexto da investigação. Se formos observar essa, como uma simples história assustadora, fica óbvia o quanto ela é promissora e só choca a cada vez mais que tentamos encontrar detalhes ou um simples porquê. É evidente que tudo isso foi um prato cheio para a criação de muita dramatização em oito episódios.

 No entanto, conhecer a história real, talvez atrapalhe um pouco a assimilação do público com as atuações de personagens específicos.

Isso acontece com Joey King, ao menos inicialmente. A atriz que interpreta Gypsy, já é bastante conhecida pelo público mainstream e por isso, conseguir identificar a personagem como alguém, ao menos inicialmente, frágil e inocente fica uma pouco complicado e especialmente em uma figura tão emblemática. Isso fica ainda mais claro quando a comparamos com a atuação de Patricia Arquette, como Dee Dee, mas sobre isso iremos falar daqui a pouco. Entretanto, ao decorrer já do primeiro episódio, a narrativa e o próprio poder que a história, por ser tão tenebrosa, possui, conseguem encontrar um ponto de encaixe com a Gypsy apresentada por King. Aos poucos, sua voz infantil e seus trejeitos característicos, conseguem criar uma empatia que só cresce, criando, já no final do segundo episódio, um personagem interessante, com inúmeras camadas e claro, comparável a complexidade da atuação de Patricia Arquette, com quem contracena na maioria das vezes.

Apesar de Gypsy ser apresentada como alguém extremamente frágil, fisicamente e psicologicamente à sua mãe, aos poucos, o roteiro vai criando uma relação direta e muito íntima com a personagem e também com a atuação de King. Essa relação é baseada na demonstração dos desejos mais profundos e também com uma espécie de revolta tímida da personagem. Mesmo que Dee Dee pareça ser sempre o centro das atenções aos olhos do público da série, Gypsy consegue nos captar facilmente, seja no seu olhar confuso ou numa simples pedido de socorro por liberdade.

Focando agora em Arquette, Dee Dee, é um personagem dúbio no que se refere ao seu comportamento quando está sozinha com a filha ou com espectadores e ficamos em dúvida entre uma personalidade complicada ou uma adulta frustrada e até talvez, na mistura disso tudo. Mais uma vez, os fatos, entram aqui como algo que acrescenta à história, ainda que a deixe com uma responsabilidade maior, pois Patricia poderia criar uma aura assustadora porém compreensível e humana para a personagem, ela possui carisma mais do que o suficiente para isso e inclusive é o que se transparece em algumas cenas específicas ao prestarmos bem atenção em sua atuação, nada mais. Porém, dada as atrocidades que foram feitas por Dee Dee, não que a série crie uma linha de julgamento, fica claro que talvez, em respeito ao bom senso, a atriz fez questão de criar uma personagem, somente ou ao menos em sua maior parte, odiável.

A primeira coisa que chamou atenção após a divulgação das imagens da série, foi a caracterização, e isso falemos diretamente sobre a dupla principal. Ambas estão muito bem preparadas e tudo na medida certa. Arquette se encaixou muito bem dentro da imagem midiaticamente conhecida de Dee Dee e também, pelo que nós nunca vimos mas ouvimos a história. Joey King, que precisou raspar o cabelo para a personagem, é claramente o ponto forte desse aspecto da série, não só pelo cabelo mas sim como a criação da figura geral de uma jovem naquele estado.

O elenco coadjuvante não perde espaço aqui, o primeiro grande destaque vai para Chloë Sevigny como Mel, que possui um grande papel antagônico ao de Patrícia e talvez o maior, ao menos enquanto não vemos alguma mudança forte em Gypsy - o que pelo trailer da série, já deu pra prever. Mel é a mãe de Lacey (AnnaSophia Robb), ambas são as vizinhas de Dee Dee e são apresentadas mais ou menos como os “olhos do público”, só que dentro da história. Mel consegue rapidamente entrar em sintonia com o espectador quando desconfia logo de toda aquela situação. Sevigny ajuda nessa construção com sua composição de um personagem aparentemente forte, esperto, muito relacionável e aqui, o fato da atriz ser bastante conhecida não atrapalha em absolutamente nada.

Anna Sophia Robb não fica para trás como Lacey, que se torna a nova amiga de Gypsy. Para quem conhece a história real, sabe que ela ainda terá um papel importante pela frente, mas até então não deu pra ver nada mais forte, ainda que sua atuação esteja seguindo um bom caminho.

O propósito da série

Ao final de tudo, The Act não se caracteriza apenas como um drama policial e sim por se aproximar também a uma espécie de suspense psicológico sofisticado e visceral. O susto não é apenas no sentido literal da palavra, como alguma espécie de jump scare (uma técnica frequentemente usada em filmes de terror e jogos eletrônicos com intuito de assustar o público, surpreendendo-o com uma mudança abrupta de imagem ou evento) e sim, acontece pela construção do contexto, criando assim uma forte tensão a medida que o espectador acompanha uma relação se tornando cada vez mais abusiva e assustadora. É só a partir dessa construção que as cenas vão se tornando assustadoras. Com destaque para o momento do piloto, em que Gypsy se levanta no meio da madrugada e ao voltar ao quarto dá de cara com sua mãe acordada sentada na cama a esperando.

Ao fim do segundo episódio “Teeth”, entendemos como Gypsy, apesar de começar a entender o quanto tudo aquilo está errado, ainda assim consegue ser facilmente manipulada por Dee Dee, que faz isso aproveitando-se das maiores fraquezas da filha. Ao mesmo tempo, a forma como a personagem começa a se revoltar contra a mãe, ainda que timidamente, fica visível para o espectador e finalmente o seu processo de crescimento e discernimento maior da situação ficam mais visíveis e criam um ótimo engate para os próximos episódios.

The Act se apresenta então como uma das novas promessas para chocar o público, não só pelo seu conteúdo em boa parte conhecido, mas sim na maneira como escolheu trazer a vida uma história tão pesada. Com um drama forte, uma caracterização marcante e principalmente grandes atuações, a série promete ser um dos grandes nomes do ano.