Quando o primeiro passo foi dado lá em 2008, era impossível imaginar onde se chegaria. Os altos e baixos, as dificuldades, os erros e também os acertos foram peças de um enorme mosaico que em dez anos mudaria completamente a relação do espectador com o cinema. O gênero de super-heróis era, até então, um elefante na sala, que embora tivesse muito potencial para dar certo, também tinha uma chance gigantesca de fracassar.

Já tínhamos presenciado algumas tentativas de explorar o gênero nos anos 40, mas ainda era tudo muito infantil, muito caricato, e ainda assim, compreensível. O Batman foi um dos primeiros personagens a tentar desbravar esse mundo louco das telas e telonas, e se tornou o exemplo mais claro sobre o poder do público na definição do tom do personagem. Aquele estilo sombrio e realista que flertava com o investigativo e bebia muito na fonte do Cinema Noir não emplacou. O público queria rir, eram tempos difíceis, e só se aceitaria um homem vestido de morcego se ele adotasse o tom do ridículo. Deu certo. O personagem alavancou. Adam West é o maior exemplo disso, quando nos anos 60 encarnou uma versão do Batman que ia contra tudo o que o personagem sempre quis. Mas funcionou. O público comprou e o herói ganhou o mundo. 

Em 1998, houve uma nova tentativa e quase um experimento. Blade, o Caçador de Vampiros chegava aos Cinemas. A adaptação da HQ queria manter o estilo e tom que vinha de seu material originário, e realmente fez isso. Não foi um filme que seguiu totalmente às HQs e também não era totalmente indicado para crianças, no entanto, o longa tentava ao máximo esconder sua origem, e renegou a sua criação o máximo que pode. Logo, era um filme de super-herói sem ser um filme de super-herói. Para explorar o gênero e expandi-lo era necessário assumir a sua verdade e se aceitar como fruto de um gênero que até então não existia. 

A mudança começou com a virada do século. Os anos 2000 deram o pontapé inicial para o nascimento oficial do gênero dos filmes de super-heróis. O primeiro filme dos X-Men estreava. Nos cinemas, víamos pela primeira vez com fidelidade, os heróis e vilões saindo das páginas dos quadrinhos e tomando conta de uma outra mídia. Era novo. Era a porta de entrada para a compreensão e manutenção do gênero. O longa possibilitou o filme do Homem-Aranha em 2002, e tivemos então a percepção da força que tínhamos nas mãos. A nova fase do cinema tinha acabado de começar. 

Do outro lado da estrada da vida, no mesmo ano, estreava o filme pequeno, indie, quase independente Welcome to Collinwood (Tudo por um Segredo, 2002), escrito e dirigido por uma dupla de irmãos. Anthony e Joe Russo. O filme tinha um elenco de peso e diretores que ainda não tinham nada no currículo além de curtas-metragens. Entre os nomes no elenco tínhamos George Clooney, Sam Rockwell e Willian H. Macy. O filme chamou a atenção. Foi recebido muito bem pela crítica, mesmo fazendo pouco dinheiro. 

Enquanto Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, compreendia o gênero e o explorava construindo uma grande série nos cinemas, os Irmãos Russo sumiram dos holofotes cinematográficos. Trabalhando na televisão, eles dirigiam alguns episódios de algumas séries razoavelmente conhecidas e iam deixando sua marca. A direção que sempre buscava ao máximo alcançar um tom de realismo surpreendente começava a chamar atenção. As suas cenas de ação muito bem dirigidas também saltavam aos olhos. A combinação de duas mentes pensantes no mesmo ritmo gerava frutos muito positivos e quando dirigiram alguns episódios de Arrested Development, conquistaram o respeito e admiração de Kevin Feige, e isso renderia muito alguns anos a frente. 

A Saga do Infinito que culminou em Vingadores: Ultimato (2019), foi estruturada de uma forma incrivelmente democrática, uma vez que visava percepções diferentes entre os diversos tipos de espectadores que levava para o cinema. Lá em 2008, com o lançamento do primeiro Homem de Ferro, o Marvel Studios dava a largada no que hoje podemos chamar de Era de Ouro dos Super-Heróis. Criando uma produção seriada exibida nos cinemas, Kevin Feige tinha a ambição de inaugurar uma nova forma de consumo e de feitura de um gênero almejado há décadas. A resposta para os dilemas que nunca tinham sido respondidos foram encontradas durante o percurso. 

Kevin optou por organizar essa grande saga por fases. Ao final de cada fase, um filme-evento (termo que ainda não existia) seria o responsável por fechar o ciclo e iniciar o próximo. A primeira fase trataria de apresentação, da origem dos personagens. A Segunda fase visava expandir a mitologia, mergulhar no desenvolvimento daqueles personagens que já conhecíamos e na introdução de novos. A terceira fase seria responsável por encerrar esses ciclos definitivamente e nos levar para uma nova fase onde tudo seria novo, construído em cima daquilo que já tinha sido muito bem estabelecido. 

A primeira fase foi conturbada no que diz respeito à escolha de diretores e adaptação dos mesmos em seguir a linha tênue entre dar personalidade aos seus filmes, ao mesmo tempo em que seguiam um tom predefinido que dava coesão para todo esse universo. Alguns não conseguiram e abandonaram o barco no meio da navegação. Tanto que dos diretores da primeira fase, apenas Jon Favreau retornou para dar sequência ao filme que dirigiu, Homem De Ferro.

A Segunda Fase apresentou novos rostos no comando dos filmes, e entre eles estava Anthony e Joe Russo à frente de Capitão América 2: Soldado Invernal. Esse momento é o marco de virada para o Marvel Studios entender que havia formas de aumentar a liberdade criativa dos diretores sem prejudicar o planejamento de coesão do universo inteiro. Quando o segundo filme do Capitão América chegou aos cinemas, a reação foi imediata. O tom que os Irmãos Russo deram para o filme, elevaram o nível para além do esperado. O roteiro mais complexo, sério, político e realista, flertava com um estilo clássico de ação que há muito tempo não se via. Era um filme de super-herói banhado naquele tom investigativo dos anos 80, que tratava de assuntos densos, sem perder a seriedade e mantendo uma leveza instigante. 

A união dos Russo com o MCU (Universo Cinematográfico da Marvel) deu tão certo, que a dupla estreante garantia o retorno para outros filmes, e a parceria agregaria valor para os dois lados. Já definido que os irmãos voltariam para o terceiro filme do Capitão e, consequentemente, um dos dois próximos Vingadores previstos até então, eles não tiveram medo de jogar as cartas na mesa e usaram Capitão América 3: Guerra Civil, como um laboratório/experimento para a concepção de Vingadores 3 (ainda sem nome).

Essa liberdade que os Russo tiveram foi um passo imensamente importante para que entendessem melhor a sua direção e explorassem a mistura com a ação realista e a fantasia do gênero. Além disso, a forma como estruturam o roteiro foi impactada pela demanda necessária para a concepção de Vingadores 3: Guerra Infinita e Vingadores 4: Ultimato.

A demanda parte da necessidade de construir um filme-evento que rompe com as “regras” do cinema. É como se ao invés de termos um filme estruturado em apresentação, desenvolvimento e conclusão, tivéssemos um filme inteiro localizado no clímax, na conclusão emocional de uma história desenvolvida ao longo de dez anos. Para que isso funcione, é preciso um entendimento muito claro dos passos que já foram dados e dos que se deseja dar a seguir. Outro fator importante é o alinhamento dos tons de cada personagem em um único filme de forma orgânica. É uma equação complexa. Cada filme, cada personagem tem um tom específico, seja ele mais dramático ou mais engraçado. O fio que une esses filmes sempre esteve presente em todos eles, e carrega uma carga dramática muito grande acompanhando a jornada percorrida por cada indivíduo que faz parte dessa história. 

Então, sem mais delongas, vamos falar de Vingadores: Ultimato.

O encerramento épico da Saga do Infinito trouxe Thanos ao palco novamente, desta vez, para encarar os seus feitos e aceitar a conclusão de sua jornada. Em contraponto, aqueles que sobreviveram tentavam seguir adiante com suas vidas, aprendendo a lidar com o fato de que metade do planeta havia sido dizimado.

O roteiro tinha a difícil missão de se estruturar de uma forma jamais trabalhada no cinema. Partindo do princípio básico de que já vínhamos acompanhando esses personagens há quase dez anos e vimos de perto a evolução de suas mitologias e desenvolvimento de seus arcos dramáticos, era desnecessário trabalhar em uma forma, seja ela qual for, de introduzir ou apresentar esses personagens novamente. O filme só existe graças a onze anos de trabalho concreto e de muito estudo e aprendizado sobre o público e sobre os nichos, os grupos sociais e o principal, a essência maior das histórias em quadrinhos de super-heróis: A simbologia da esperança.

A estrutura da história tinha que ao mesmo tempo em que avança as mitologias, - e entende-se como mitologia, o universo particular de cada grupo de personagens -, relembrar e amarrar tudo o que foi feito desde o primeiro filme, em 2008. É explorar a evolução de cada um dos heróis e também mostrar o lado mais humano deles. A falha, a queda, a impossibilidade de encontrar uma solução, e a determinação para seguir em frente. Desde o início das HQs, elas sempre fizeram paralelos muito grandes com o mundo real. Sejam esses paralelos sobre representatividade, auto-aceitação, ou qualquer outra forma de espelhamento social. Cada um destes personagens carrega em si uma forma de se alinhar ao que carece à sociedade no que tange à exemplos, no sentido mais fraco da palavra mesmo. Tony Stark, um bilionário egocêntrico que ganhava dinheiro com armas, aprendeu e entendeu seu papel no mundo, e usou seu conhecimento para ajudar as pessoas e buscar se tornar uma pessoa melhor. No mais profundo, em Ultimato, aprendeu o significado da palavra Sacrifício, e o quanto as vezes é necessário se sacrificar por alguém, por aquilo que acredita ou por uma causa maior.

Com tudo isso nas entrelinhas do roteiro, o filme entrega uma singularidade de convergências entre os arcos que mesmo com poucas linhas de diálogo, ou pouco aprofundamento em algumas partes, devido ao limite de tempo, é perceptível a carga emocional e de história que está ali por trás. Isso se deve a construção ao longo dos anos, e a percepção do público ao entendimento de que aquele filme é composto por outros vinte filmes e isso cria um vínculo que já havia se perdido no cinema. 

Claro, há sempre aqueles que irão discordar da importância, da grandiosidade deste trabalho e desmerecê-lo. Toda opinião é válida desde que use argumentos plausíveis e não egoístas. Alguns cinéfilos, por exemplo, insistem em desprezar o tipo de cinema que o Marvel Studios construiu, sem perceber que essa nova forma de se comunicar com o espectador, trouxe milhares de pessoas ao cinema; pessoas que antes, não tinham a mínima vontade de consumir esse tipo de mídia. Se dizer que os filmes da Marvel são de nicho os fazem se sentir melhor, que digam. Não há nicho mais fechado que o dito “cult”, que fecha as portas para a maioria das pessoas que podiam ter o mínimo de interesse em conhecer esses outros tipos de filme, de cinema, mas são desprezados pela própria comunidade cult que procura fazer filmes para um tipo específico de público. O Marvel Studios quebrou esse paradigma, e construiu histórias identificáveis para todos. O cinema sempre teve que ser isso: De todos! 

Os irmãos Russo tiveram uma sensibilidade gritante para entender o tamanho de Ultimato e ainda assim, ousar brincar com esse quebra-cabeça e entregar uma direção que é fiel ao seu estilo e fiel aos quadrinhos, referenciando e homenageando grandes nomes que possibilitam tudo isso. As HQs, matéria-prima de todo esse universo criado está presente em todo o momento, e para os nerds mais casca-grossa e mais velhos, com certeza o sentimento é o mesmo de quando liam um super saga dos anos 70. 

A câmera que vividamente observa os personagens e participa da ação elevando o nível de adrenalina, se mescla a fotografia realista e mais escura, que mergulha nas entrelinhas do que não é dito, mas sentido. Os diretores conseguem passar a sensação do enclausuramento em que os personagens se encontram, ao mesmo tempo em que mantém a personalidade de cada um deles, quando o tom é mais leve. Um equilíbrio muito tênue que dá ao filme características próprias. Voz própria e definitivamente marcante na história do cinema. 

Desconsiderá-lo é de um cinismo vergonhoso. Todos os públicos merecem obras que honrem e celebrem a jornada que percorreram. Assim como Cantando na Chuva, 1952, A Noviça Rebelde, 1965,  Laranja Mecânica, 1971, Star Wars: Uma Nova esperança, 1977, Curtindo a Vida Adoidado, 1986, Pulp Fiction, 1994, Matrix, 1999, Homem-Aranha, 2002, Batman: O Cavaleiro das Trevas, 2008, Avatar, 2009, dentre outros que se tornaram marcos de uma nova forma de pensar e fazer o cinema. Ser Blockbuster nunca foi um crime. Lotar as salas de cinema também não. 

Anthony e Joe Russo com certeza saíram com um aprendizado enorme sobre como construir uma relação sólida com o público, e agora que concluíram seu trabalho no Marvel Studios, estão se aventurando na produtora que abriram, fazendo filmes que flertam com o popular e com o Nicho. Filmes que se assemelham com o termo "filme de oscar" e "filme de família", afinal, a história do cinema se reinventa cada vez que alguém tenta propor uma nova forma de comunicação e de expressão. A tal arte que caracteriza o cinema está na tentativa e erro de entender a potência dessa mídia e sua força enquanto instrumento de propagação de histórias e reflexões. 

Enquanto isso, o Marvel Studios parte para um nova linha de estrutura na quarta fase, onde explorarão novas formas de contar suas histórias, novas fórmulas que democraticamente atingem todas as faixas demográficas, e novos personagens e formas de representar o mundo atual. Plural como ele é. Além disso, é importante mencionar o passo da Disney no mundo do Streaming, e onde pela primeira vez, teremos "tv" e cinema se conectando em um mesmo universo. 

Todas essas novas formas de comunicação com o cinema, enriquecem o mercado e reinventam a linguagem cinematográfica. Não importa qual empresa dê o primeiro passo, essas interações e explorações tendem a agregar e solidificar algumas potências desta mídia, e o mundo inteiro tem a ganhar com isso. O Brasil conseguiu dar um passo gritante através dos filmes da Marvel, para entender que há público e demanda para adaptar quadrinhos nacionais, e temos mais de cinco filmes que exploram o gênero.  Direta ou indiretamente, todos somos afetados por essas mudanças, e cada tentativa de reinvenção dá uma nova maneira de olhar para o cinema.