É inegável o fato de que os últimos anos têm sido dominados e comandados por mulheres no cinema, trazendo uma revolução para o protagonismo nas grandes telas do mundo. Nenhuma franquia parece conseguir desse fenômeno necessário em um momento histórico tão imprevísivel e que parece andar para trás, principalmente no nosso país.

Esse período que vivemos será sempre lembrado como o período em que as mulheres resolveram lutar pela igualdade definitiva entre os gêneros. O levante ganhou força quando as atrizes de Hollywood lançaram a campanha Times Up e começaram a denunciar distorções salariais entre elas e os homens, endossando as conclamações por salários iguais. Até o momento, o ápice deste levante foi o discurso de Oprah Winfrey durante a entrega do Globo de Ouro em janeiro deste ano, afirmando que "um novo dia está no horizonte" para mulheres. Já na cerimônia do Oscar, que coroou o filme A Forma da Água, contou com o discurso de Frances McDormand, vencedora do Oscar de Melhor Atriz, que lembrou em seu discurso de agradecimento que todas as atrizes presentes têm projetos que precisam de financiamento.

Com essa digna apresentação, vamos voltar para 1960, quando chegava aos cinemas o filme "Onze homens e um Segredo". Filmes como esse eram poucos e raros. E até hoje é difícil encontrar uma produção que reúna não apenas grandes atores, como grandes amigos dentro de um só set de filmagem. Assim foi marcada a produção de Steven Soderbergh, que alçou o vôo da franquia. Soderbergh recriou com maestria a história de um grupo de amigos, veteranos na arte do roubo que, com classe (muita classe), aplicavam golpes em instituições financeiras e/ou cassinos e sempre se safavam ilesos. A produção contava com Lewis Milestone na direção e com ninguém menos que Frank Sinatra no papel de Danny Ocean, o cabeça do grupo. Um dos principais pontos que tornaram Onze Homens e Um Segredo um verdadeiro sucesso: o elenco. Clooney e Brad Pitt estão absolutamente impecáveis como os líderes do astuto grupo de ladrões. Logo, com poucos minutos de projeção, o público todo já cai aos seus pés. Eles possuem estilo; possuem classe; esbanjam carisma e, acima de tudo, são privilegiados por terem recebido um presente maravilhoso por parte da produção: diálogos extremamente bem estruturados e inteligentes. Esse talvez seja o principal ponto que torna o apelo desses personagens tão grande e fascinante.

Há uma grande chance da maioria das pessoas não saberem de fato quais filmes fazem parte dessa franquia. Eu, até pouco tempo atrás, pensava que cada um dos filmes lançados com tantos homens e alguns segredos no título eram reboots dos que vieram antes, mas pasmem, eles possuem uma ordem. Depois do filme de 1960, vieram: Onze Homens e um segredo (2001), Doze homens e outro Segredo (2004) e Treze Homens e um Novo Segredo (2007). Agora, finalmente, a franquia cheia de testosterona ganha um frescor feminino com o filme que estreou ontem nos cinemais nacionais, e agora sim, vamos falar de Oito Mulheres e Um Segredo. O novo longa já é cotado como um dos melhores filmes Girl Power da década. A trama traz Debbie Ocean (Sandra Bullock) irmã de Dannye Ocean (Clooney), que sai da prisão após 17 anos e reúne um Dream Team para o mais novo assalto do século.

Juntam-se à Debbie, Lou (Cate Blanchett), Rose (Helena Bonham Carter), Nine Ball (Rihanna), Tammy (Sarah Paulson), Constance (Awkwafina) e Amita (Mindy Kaling). O alvo das bandidas é o colar que será usado pela celebridade Daphne Kluger (Anne Hathaway) no desfile. Se tudo der certo, em algumas semanas cada uma das oito ladras verá US$ 16,5 milhões na conta bancária.

A ideia de arejar franquias com elencos femininos não vem de hoje. Faltam, porém, mais diretoras no comando dessas produções de grande orçamento. Mad Max: Estrada da Fúria (2015) tornou-se um marco no cinema de ação ao introduzir Imperatriz Furiosa (Charlize Theron) e ideias feministas a uma história adormecida há décadas.

O mais recente Caça-Fantasmas (2016) apostou num reboot com direito a uma esperta inversão de papéis – Chris Hemsworth interpreta um secretário bonitão, mas sonso e tapado. Na guerra das editoras de gibis Marvel e DC, cada uma passou a dar mais atenção às super-heroínas: Capitã Marvel chega em 14 de março de 2019, enquanto Mulher-Maravilha fez sucesso e garantiu sequência para 2019.

Outras sagas tradicionais também abriram espaço para personagens femininas. Star Wars renovou seu leque de justiceiros galácticos com Rey, a predestinada personagem de Daisy Ridley, protagonista de O Despertar da Força (2015), Os Últimos Jedi (2017) e do futuro Episódio XI (19 de dezembro de 2019).

Os Últimos Jedi ainda trouxe pelo menos mais duas figuras marcantes – a vice-almirante Holdo (Laura Dern) e Rose Tico (Kelly Marie Tran) –, enquanto o spin-off Rogue One (2016) mostrou a bravura da órfã Jyn Erso (Felicity Jones). Ainda no espaço, a série de Star Trek, Discovery, disponível na Netflix, se passa antes das missões da Enterprise e narra as expedições da oficial Michael Burnham (Sonequa Martin-Green).

Para fechar a matéria, vale ressaltar que aqui não estamos medindo a qualidade dos filmes, e isso também não é nem de longe uma crítica. É uma visão geral do mercado e das mudanças que estão acontecendo, que tendem a dar um respiro para a sétima arte e quebrando os modelos clássicos de se fazer filmes, principalmente em Hollywood, entendendo que as mulheres tem sim o seu espaço, e ao contrário do que se pensava na Era de Ouro lá em 1939, a mulher tem força suficiente, tanto quanto um homem, para protagonizar um filme, seja ele drama, ação ou comédia, ou qualquer outro gênero. O fato é: precisamos equilibrar as coisas, o mundo anda virado demais, e cabe a arte - mesmo o cinema comercial e industrial - cutucar essa questão, uma vez que a maioria do público mundial dos cinemas são homens brancos e de classe média. Queremos mais mulheres nas telas, queremos negros, queremos gays, lésbicas... Queremos toda a diversidade que existe no mundo representada na grande tela.