Ser um super-herói tem seu fardo. São muitas responsabilidades, como já dizia o Tio Ben, e nem sempre é fácil lidar com elas. A pressão de ser um exemplo para a sociedade e ter que salvá-la de seus próprios erros pode levar qualquer um de nós à loucura.

Hoje em dia é muito raro a gente se surpreender com um herói meio controverso. Aquele justiceiro que é atormentado pelos seus demônios internos, de voz rouca, uniforme escuro e determinação para matar seus inimigos de vez em quando, só pra ninguém achar que ele não é de fato poderoso. Essa figura tem caído no clichê nos dias atuais, mas isso vem lá dos quadrinhos, e curiosamente, depois de um longo período onde os heróis era figuram santificadas que deveriam ser o rumo do planeta Terra. 

Agora vamos viajar pelas histórias em quadrinhos e descobrir quais super-heróis já pisaram na bola e vacilaram feio.

 

 LANTERNA VERDE, MESTRE DAS PIADINHAS RACISTAS

Vamos começar com um dos episódios mais politicamente incorretos da história dos quadrinhos. Tudo começou em 1960, quando a DC resolveu seguir a regra de quase todos os heróis da época e dar um jovem companheiro para Hal Jordan. O herói resolveu revelar sua identidade secreta para um mecânico esquimó (Exatamente isso que você leu) que trabalhava com ele – na vida civil, Jordan era piloto de testes.

O primeiro indício de que isso era uma ideia ruim é o fato de que, como esquimó, o rapaz era membro da “raça amarela”. E a única fraqueza do anel do Lanterna Verde é a incapacidade de afetar a cor… amarela.

Como se não bastasse essa piadinha besta, o apelido dado pelo herói ao garoto (cujo nome verdadeiro era Thomas Kalmaku) resvalava ainda mais no racismo. Ele era chamado de Pieface (Cara de Torta), uma expressão que podia ser tanto uma referência ao rosto largo típico dos esquimós quanto significar algo como “cara de bobo”. Nem um pouco simpático.

Em 1989, durante uma história que recontava as origens do Lanterna Verde, o pessoal da DC tentou remendar o apelido de má fama com outro trocadilho não muito esperto. “Um esquimó de verdade, hein?”, pergunta Jordan quando conhece o garoto. “O único esquimó que eu já tinha visto era o sorvete Eskimo (que, em inglês, é conhecido como Eskimo Pie, ou “torta esquimó”). Que tal se eu te chamar de Cara de Torta?” É, manda ver, grande ideia, Hal.

 BATMAN MANDA O ROBIN PRO ORFANATO 

Sabe aquela dublagem apócrifa e cheia de palavrões de um dos episódios da antiga série de TV do Batman que acabou ganhando notoriedade no YouTube? Quem já viu esse clássico sabe que, em dado momento, o Cavaleiro das Trevas ameaça o Robin: “Mal-agradecido. Vou te colocar num colégio interno”. Pois bem, foi praticamente isso que acabou acontecendo numa história publicada em 1963 e pelo motivo mais bizarro do mundo: o desejo de vingança do Batman contra o Superman.

Explica-se: na narrativa em questão, um daqueles exercícios de “o que aconteceria se” que os autores de quadrinhos tanto apreciam, o jovem Bruce Wayne cresceu achando que o responsável pela morte de seu pai tinha sido… o Superboy. O Menino de Aço até faz uma visita à Mansão Wayne para dizer que ajudaria a encontrar o assassino, mas Bruce não se convence.

Fora esse “pequeno” detalhe, as trajetórias dos personagens são as mesmas. Enquanto o Superboy cresce e vira o Superman, Bruce Wayne assume a identidade de Homem-Morcego e combate o crime em Gotham City, ao lado de seu parceiro, o Menino-Prodígio, que ele acabou adotando após a morte dos pais do garoto.

Mas o grande objetivo do Batman desse universo alternativo é, claro, pegar o Superman de jeito. O problema é que, ao resmungar consigo mesmo sobre seu ódio contra o super-herói de Metrópolis, Batman acaba sendo entreouvido por Robin. O Cavaleiro das Trevas revela, então, todo o seu plano de vingança – e é totalmente rechaçado pelo Menino-Prodígio, que não consegue acreditar que o Superman seria capaz de cometer um assassinato.

"Bolado", Batman não só dá uns tabefes em seu parceiro mirim como usa um aparelho hipnótico para apagar as memórias do garoto e o manda para um orfanato para evitar que o moleque coloque em perigo sua identidade secreta e seu plano.

E fica pior: finalmente pronto para a vingança, Batman firma uma aliança com Lex Luthor para destruir o Homem de Aço. Só que, no meio do plano, o Homem-Morcego se dá conta de que, na verdade, o responsável pela morte do papai Wayne é ninguém menos que… Luthor, claro. 

Batman, então, sacrifica a própria vida para impedir que Luthor matasse o Superman. Ninguém sabe se o coitado do Robin acabou conseguindo recuperar a memória ou ficou vivendo para sempre no orfanato.

PROFESSOR XAVIER, MANIPULADOR E PEDÓFILO

Parecem acusações pesadas demais contra o mentor dos mutantes do bem da Marvel? Pois é meio complicadinho negá-las.

Durante a primeira encarnação da equipe dos X-Men, na década de 1960, o Professor X tinha a desagradável mania de fingir que tinha perdido seus incríveis poderes mentais só para ver que bicho dava. Sua intenção era “testar” o que seus alunos fariam na ausência da ajuda de seu mentor. Diante de um atônito Ciclope, que perguntou: “Mas por quê, senhor?”, ele deu a simpática resposta: “Lembre-se. Isto aqui é uma escola. E você não consegue se formar em nenhuma escola sem passar pelo seu exame final. Bem, todos vocês acabam de fazer a sua prova final… exatamente como eu planejei!” (diálogo de uma história dos X-Men de 1964).

De quebra, numa edição de 1968, ele forjou sua própria morte e ficou meses desaparecido, deixando os X-Men desesperados e à mercê de inimigos como Magneto. Ele justificou o sumiço como necessário para que, em segredo, ele preparasse sua equipe para resistir a uma invasão alienígena. Custava ter avisado os garotos?

Mas a coisa fica feia mesmo quando, naqueles convenientes balõezinhos de “pensamentos”, o bom professor confessa seu amor por Jean Grey. É, aquela que na época era apenas sua aluninha adolescente. Alguém devia avisar o Charlie que isso dá cadeia. Mas, de novo, os roteiristas da Era de Prata mostram a completa falta de bom-senso que às vezes tomava conta deles. O que Xavier pensa sobre toda a questão fica resumido nestas frases: “Eu nunca poderei contar a ela (sobre seu amor)! Não tenho o direito de fazer isso! Não enquanto sou o líder dos X-Men e estou confinado a esta cadeira de rodas!”

Por sorte, praticamente não se falou mais nisso nas histórias dos mutantes por décadas. Foi só nos anos 1990 que a paixão mal resolvida do professor por Jean se tornou um dos fatores para que ele pirasse, dando origem ao vilão Massacre.

 SUPERMAN, PAPAI DO ANO - SÓ QUE NÃO

É 1958, e Jimmy Olsen, o jovem repórter fotográfico do jornal Planeta Diário e grande amigo do Superman, está chateado. É que está rolando um piquenique de pais e filhos do jornal, mas Jimmy não pode participar da festa, já que é órfão. (Deixemos de lado o fato de que ele já está no fim da adolescência, mora sozinho e tem uma carreira – de repente no rapaz bateu uma vontade de voltar à infância.) Do nada, o Superman aparece e resolve fazer uma proposta inusitada para alegrar seu desconsolado amigo: o herói poderia muito bem ser “o pai adotivo oficial” de Jimmy!

Contando a coisa desse jeito, parece até mais uma daquelas histórias fofas, porém bobinhas, dos anos 1950, mas logo de cara o Homem de Aço começa a fazer coisas nada recomendáveis – como usar seus poderes para que ele e Jimmy ganhem na moleza as gincanas do piquenique.

E vai ficando pior. Jimmy passa a morar junto com o Superman numa casa que o herói alugou para os dois e, inesperadamente, sofre bullying. Primeiro o Homem de Aço dá uma arma laser na mão de Jimmy e, logo depois, chama a atenção dele por mexer no objeto sem permissão (sendo que, na verdade, a permissão tinha sido dada). Ele acusa Jimmy de bisbilhotar uma “sala secreta” da casa, de novo injustamente. E chega ao cúmulo de usar sua visão de calor para queimar o roupão (com o emblema do S!) que Jimmy mandou fazer para ele com todo o carinho como presente do Dia dos Pais.

Decepcionado, Jimmy consegue na Justiça o direito de cancelar a adoção. E só então o Superman revela o motivo de tanta maldade: sua máquina de profecias (sim, o Superman dessa época tinha isso, minha gente) revelara que o herói iria destruir seu próprio filho. Destratar Jimmy teria sido uma forma de induzi-lo a cancelar a adoção, para protegê-lo. Beleza, mas não dava pra simplesmente ter contado isso pro rapaz?

Machismo heroico 
Em 1942, a Mulher-Maravilha foi aceita na Sociedade de Justiça (protótipo da Liga da Justiça), mas apenas na função de secretária do grupo, enquanto os outros heróis saíam para as batalhas.

Beijo em família 
Ao tentar enganar Lois Lane, em 1960, Superman fez sua prima Supergirl se disfarçar de sua noiva e aproveitou para dar uns beijos na moça.

Heil, Homem-de-Ferro! 
Em 2006, o alter ego do Homem-de-Ferro, Tony Stark, capitaneou um esforço para fazer um registro de todos os superpoderosos do Universo Marvel. Quem se recusava era mandado, sem julgamento, para um “campo de concentração” em outra dimensão.

Superzoofilia 
Cometa, o Supercavalo, personagem criado em 1962, era o companheiro número 1 da Supergirl. O problema é que na verdade o bicho era um centauro da Grécia antiga, que se apaixonou pela heroína e fazia de tudo para tentar se transformar em humano e dar uns pegas na moça.

 

Fonte: SuperInteressante