Não se trata de nenhuma novidade que o nosso passado nos molda em adultos como uma consequência. Crescer é entender que a realidade engole tudo e qualquer coisa nas nossas vidas e isso nem sempre é prazeroso. Lidar com o que somos muitas vezes é mais difícil do que imaginávamos quando não tínhamos tanto conhecimento sobre a vida, isso porque às vezes, quando começamos a lidar com o peso de crescer e sem o conhecimento suficiente, é muito mais fácil nos conectarmos ao que temos de ruim dentro de nós.

Ao nos apresentar o passado de Cal Jacobs, Euphoria dá um passo ainda maior em sua incrível habilidade na construção de seus personagens. 

Desde que apareceu lá na primeira temporada, Jacobs é um personagem interessantíssimo, talvez dentre os pais dos adolescentes o que possui mais peso na trama devido aos seus atos. Apesar de todo esse peso significativo, ele também é um personagem de apoio para Nate Jacobs (seu filho e um dos personagens principais da série). No episódio mais recente, “Ruminations: Big and Little Bullys”, ele não deixa de ser um coadjuvante, mas ainda assim passa também a ter o seu protagonismo. Não somente porque finalmente conhecemos muito mais sobre o seu passado, mas principalmente porque ele consegue se conectar e explicar o personagem que conhecíamos até o episódio anterior e, claro, suas ações mais peculiares (e as ilegais tbm rs).

Essa construção nos mostra, ao mesmo tempo, de forma despretensiosa e específica a edificação da psique do homem que cresceu em um ambiente com uma forte presença masculina. Fica explícito pela própria narração de Rue que estamos vendo sobre uma outra época, mas a estética de euphoria é tão marcante que, às vezes, parecemos estar observando mais sobre o presente da série (que é uma história ligeiramente atual, na medida do possível).

O que nos faz situar que estamos no passado são pequenas coisas, não somente as mais óbvias como a citadas, mas também pequenas inserções no roteiro que fazem toda a diferença (aliás, uma outra característica já marcante de Sam Levinson desde Assassination Nation). Uma delas é quando o treinador de luta greco-romana “estimula” os alunos gritando coisas como: “Você não quer ser uma bicha!” ou como, já mesmo na primeira cena, Cal e seu melhor amigo se provocam usando piadas homofóbicas. E claro, a aparente relação entre Cal e seu pai, que mesmo sem dizer muita coisa parece ter tudo a ver com a própria homofobia internalizada do filho.

Não que essas coisas não existam atualmente nesses mesmos ambientes, mas do jeito que é mostrado, combinado a toda a construção das cenas (incluindo também fotografia e design de produção) fica claro que estamos vendo sobre um passado. Uma época com inúmeras ramificações e consequências ao que se vê hoje nesses mesmos ambientes. No caso da série em si, temos esse resultado do passado e ele se chama Nate Jacobs.

No episódio temos a cena do banheiro que faz um paralelo direto com a própria adolescência de Nate. Cal observa os amigos pelados tomando banho da mesma maneira que Nate lá no episódio 1x02 (Stuntin’ Like my Daddy). Isso não necessariamente indica exatamente a mesma coisa sobre ambos, no quesito sexualidade, mas com toda certeza uma relação de similaridade e repetição de padrões de forma inconsciente.  A grande diferença aqui é o tempo em que eles vivem e como a sociedade evoluiu. Entretanto, o que parecemos estar vendo é que a repetição de padrões dentro dessa família é algo muito mais forte e impenetrável do que se imagina. Ou seja, mesmo que Nate viva em uma sociedade muito mais evoluída (com todos os retrocessos que ainda existem) e a frente do tempo de quando seu pai era adolescente, ele ainda vive dentro de uma cúpula em que sua própria origem e natureza proíbe que essa aceitação o proteja de alguma maneira. A impressão dada é que ele é ainda mais perdido que o seu próprio pai em sua adolescência.

Cena de Nate no banheiro no 1x02

Com o desfecho da trama em específico no episódio passamos a compreender muito mais o personagem e algumas de suas motivações específicas. Sua relação com Nate, ainda que não seja um foco dessa vez, também é explicada de certa maneira. Cal é um homem que, por consequências da vida e do tempo em que foi jovem e claro, por sua própria índole e personalidade, se transformou em um adulto completamente diferente daquela faceta sonhadora e leve que tinha no passado.

Euphoria é uma série que fala sobre como a juventude está ligada a liberdade e a inconsequência. Na vida de Cal, tudo isso sempre foi tomado em pequenas parcelas até que o seu próprio destino (ou talvez uma namorada muito mala…) tomou-lhe o resto, ainda que não justifique completamente todas as suas decisões tomadas ao longo de sua vida adulta.