O ano é 2013. Agents of SHIELD chega à televisão prometendo estender o MCU, mas começa engatinhando sem saber muito bem para onde ir. Ancorada em Phill Coulson, o agente mais querido que havia sido assassinado por Loki em Vingadores (2012), a série dá a sua primeira cartada em uma narrativa introdutória, que ao mesmo tempo em que expandia a mitologia da organização, apresentava os homens, “os normais”, por trás dos grandes eventos mundiais, fugindo da grandeza alienígena que estava nos cinemas. 

INTEGRAÇÃO AO MCU

Dando um respiro ao gênero de super-heróis, a série misturava os elementos clássicos do gênero com o ar de espionagem. Uma grande aventura que tinha uma forte tendência a se consolidar. Ora, era o primeiro passo da tão sonhada integração do universo compartilhado da Marvel que poderia se comunicar diretamente entre cinema e televisão, cada meio, interferindo, completando e construindo essa grande saga. 

Assim que essa integração começou a aparecer sutilmente aqui e ali com referências, easter-eggs, e afins, percebeu-se que essa comunicação teria dois lados. O positivo era óbvio: Expansão de mitologia, fidelização de público entre tv e cinema e o principal, ampliação de alcance. O negativo, por sua vez, era o mais drástico. A série teria que se limitar a construir histórias que estivessem dentro dos parâmetros traçados por Kevin Feige para o MCU. Essa limitação era como uma âncora, um peso que não deixaria a série voar para onde queria. 

Como esperado, o lado negativo era mais forte, e nas três primeiras temporadas era perceptível como Agents queria chegar a algum lugar, mas não conseguia. Enquanto a série referenciava e construía de fato o MCU, o cinema ignorava seus feitos, e a comunicação era enfraquecida a cada novo filme lançado. Não era uma via de mão dupla. A série estava sozinha e abandonada, negligenciada pelo cinema, e era preciso romper de vez essa parceria, embora a produção tivesse feito grandes coisas pelo MCU.

O primeiro episódio da série que teve uma grande conexão ao MCU, foi o “The Well”, que acontece imediatamente após os eventos de Thor: O Mundo Sombrio. Da outra vez, conexão direta com Capitão América: Soldado Invernal. Lembra da Hydra dentro da SHIELD? Toda essa trama começou na série, que teve grande parte da primeira temporada dedicada a desvendar esse grande conflito. Logo, quem assistia a série e acompanhava o MCU, já sabia o que esperar nos cinemas; sabia que a SHIELD havia caído.

Não parou por aí. Vingadores: A Era de Ultron também teve parte de sua trama em Agents. Inclusive, quando Fury aparece com o aeroporta-aviões em Sokovia e diz que teve ajuda de amigos para tirá-lo da garagem, era uma referência à série, à Coulson. Nós vimos isso acontecer. Vimos o acordo de Sokovia ter impacto na série, o que também conectava Capitão América: Guerra Civil. Mas não era o bastante. Era preciso se libertar. 

ESTRUTURA DE TELEVISÃO

Uma das coisas que atrapalhava Agents a se firmar sozinha, era seu formato clássico, que precisava de vinte e poucos episódios para cada temporada. Era difícil encontrar soluções que dessem uma leveza para a série, criando narrativas mais dinâmicas, que andassem sem muletas.

A solução foi se mostrando aos poucos. A ideia era dividir cada temporada em três partes. Cada uma dessas partes tinha um “tema”, um conflito específico, que se conectava mais para o final da temporada. Simplificando: Ao invés de termos uma temporada com um grande arco, tínhamos uma temporada, dividida em um grande arco que abrigava três arcos menores. A cada 8 episódios - mais ou menos - a micro temporada terminava e começava outra logo em seguida. 

Depois que implementaram essa divisão estrutural, levou pouco tempo para aprimorarem e entenderem ainda melhor como essa ideia funcionava com o público. O resultado foi positivo. A série ganhava então um novo ritmo, uma nova dinâmica, e mais conteúdo, sem perder a coesão, a unidade que cada temporada - completa - tinha que ter.

O GÊNERO 

A série começou como uma história de espionagem e foi evoluindo aos poucos para o gênero de super-heróis, trazendo elementos clássicos dos quadrinhos, do cinema e da televisão, mesclando tudo isso em um pacotão de aventura leve com momentos de grande tensão dramática.

No entanto, ainda faltava algo. A série já tinha melhorado bastante em relação a primeira temporada, que era uma experimentação da espionagem. Já na segunda temporada, ela estava mais madura, e os personagens conseguiam evoluir bastante, sempre mantendo a coesão. O gênero de super-heróis pareciam limitar o crescimento natural ano após ano, e então veio a quarta temporada, que mudou tudo! 

A quarta temporada dava início oficial aquela estrutura de micro arcos, e também colocava Agents of SHIELD além dos super-heróis; a série começou a abraçar a ficção científica. 

Foi no quarto ano da série que tivemos a introdução do Ghost Rider, e o primeiro micro arco era todo dedicado a entender o personagem, suas motivações e o que ele era em relação ao mundo. 

O segundo micro arco trazia a inteligência artificial em nível hard. Com Aida (Madame Hydra), A modelo de vida artificial vilanesca roubando a cena, tal qual o Ghost Rider.

O terceiro e último micro arco era “Agents of Hydra”, uma continuação direta do micro arco anterior, onde através da inteligência artificial, criou-se um mundo inteiro onde a Hydra tinha vencido a guerra, e a SHIELD não existia. 

Essa última parte era a consequência das duas partes anteriores, e ainda que fosse um micro arco, tinha uma espécie de divisão dentro dela, criando um novo micro arco que, ao mesmo tempo em que mostrava o mundo com a Hydra no poder, também caminhava a narrativa em torno da fuga desse mundo artificial, e como o Ghost Rider poderia ser uma solução para esse grande conflito. 

Vale destacar que essa última parte, era uma referência saborosa as HQs de WHAT IF... que sempre imaginavam possibilidades estranhas e/ou opostas as canônicas e as mostravam. Lembrando também que teremos uma série animada de What If no Disney + em breve. 

A QUINTA E SEXTA TEMPORADAS

Depois do excelente quarto ano, a quinta temporada abandonou de vez a Terra e foi expandir o lado cósmico da Marvel. Era incerto se esse universo era o mesmo do MCU, mas a série chegou em um ponto onde isso não era mais relevante. Ela finalmente tinha forças para caminhar sozinha. 

O nível de maturidade já era alto. Ela conseguia representar o gênero dos super-heróis, mesmo abraçando mais forte a ficção científica. Conseguia o que nenhuma outra produção tinha conseguido. Ser fiel às HQs ao mesmo tempo em que se renovava e se traduzia para uma nova plataforma e um público amplo. 

A série havia perdido o medo de ser o que era, e de ter vindo de onde vinha. Abraçou os quadrinhos e os clichês que vinham de lá, e o melhor, brincava com isso. Se zoava por ter alguns clichês. Era consciente do seu caminho, e sabia muito bem para onde iria, e ainda mais, tinha a certeza de que o fim estava próximo.

O sexto ano trouxe uma evolução gigantesca. Os personagens, muito bem trabalhados ao longo dos anos, estão no ápice de maturidade e força. Conscientes de seu papel no mundo, e preciosistas a tudo o que já passaram. 

Isso pode ser caracterizado como uma das marcas mais forte da série. Foram tantas aventuras, tantas loucuras, planetas e perdas. Anos de aprendizado. Vitórias, derrotas, amores. Cicatrizes eternizadas na pele, mudanças que nunca poderão ser desfeitas. É tudo parte da história. Nossa história. Sempre lembrada, e ainda relevante. Agents of SHIELD faz questão de ser fiel a si mesma, e procura sempre trazer elementos do passado para o presente, para a narrativa atual. Assim como a vida real. É o que somos. Marcas do passado formam o que somos no presente, e Agents soube trilhar esse caminho com maestria.

O sétimo ano chega em 2020. Será o último. Sem dúvidas, teremos diversas referências a tudo o que já passou. A todos que já se foram. Todos que fizeram parte do que Agents construiu. Afinal, como um cara por aí disse, parte da jornada é o fim.

Mas uma coisa é certa. Somos todos Agentes da SHIELD.