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Assista ao trailer: Game of Thrones | Season 8 Episode 6 | Preview (HBO)
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Talvez seja um senso comum hoje em dia, que, “A jornada é tão importante quando o final de uma história” e isso pode vir para nos acalentar quando não nos satisfazemos como fim de algo. Quando um produto torna-se tão grande que perde algumas proporções como a que envolve satisfazer o gosto do público, é comum que geralmente uma boa parte não se sinta agraciado.

O encerramento de Game of thrones nos veio para confirmar o óbvio mas também para provar que na verdade, as vezes, a jornada é não só mais importante que o fim, como também mais legal de assistir. É provável que os escritores da série sabiam disso o tempo todo e se isso realmente for verdade, tentar compreender como tudo terminou em suas mãos, talvez seja um pouco difícil em alguns aspectos importantes.

Daenerys como faceta principal dessa conclusão, significa o quanto sua imagem pode ter sido usada esse tempo todo, como um artifício de roteiro para tornar a série momentaneamente mais interessante. Como já disse antes, a série é mestra em construir jornadas incríveis e nos fazer apaixonar por personagens marcantes e no fim matá-los, provando o quanto esse mundo tão minuciosamente construído, é sanguinário e imperdoável. É até compreensível quando enxergamos a personagem de Emilia Clarke dentro desse espectro, vendo como sua jornada terminou aos nossos olhos, como um novo “casamento vermelho” (a maior e mais sangrenta reviravolta da série até então) mais sutil e também não menos horripilante quando lembramos de sua construção.

Não é difícil lembrar ou entender que, a personagem sempre foi a maneira mais fácil da série conectar-se com o público. A fragilidade da qual parte sua história, a tornou provavelmente a mais relacionável com o espectador que não tinha o costume de assistir um conteúdo tão complexo do ponto de vista narrativo. Acompanhar ao longo dos anos, o crescimento da personagem, passando por várias fases que construíram ainda mais sua aparente profunda personalidade, tornou esse mesmo público mais fiel a série e esperançoso por um final não exatamente esperado, mas coerente.

A série sempre foi rica em diálogos recheados de um conteúdo que contribuía diretamente para uma narrativa que estava sempre progredindo para algo maior e melhor e principalmente, sempre fazendo sentido com a personalidade de cada personagem e a situação desses em determinado momento.

Quando estamos diante do contexto em que fomos jogados no último episódio, ver Daenerys ser morta da maneira que aconteceu, vai de encontro a tudo aquilo que foi construído pela série. Transformar uma personagem tão rica em um resumo de uma característica de seu antepassado homem, nega boa parte da base pela qual a história foi estruturada até os últimos anos, em um momento em que a série parecia querer passar uma mensagem de que sua conclusão seria uma subversão da maioria das histórias medievais, com duas mulheres lutando a grande batalha final por um símbolo representado majoritariamente por homens até então, o trono de ferro. Essa característica em específico, prova que homens nunca irão saber construir uma personagem mulher tão bem quanto uma própria, não que eles não possam até porque isso não faz sentido.

 O que foi feito nesse final e a isso, me refiro apenas a série da TV, foi uma espécie de Cavalo de Tróia onde a representação feminina foi usada como um mote incrível de subversão de uma série tão cheia de testosterona, quando o verdadeiro final da narrativa propôs, disfarçado de ironia inteligente, (o que talvez tenha tentado ser) o mesmo mundo que conhecemos lá no início.

Os finais de personagens femininas como Brienne, Sansa e Arya Stark poderiam sim ser consideradas como um argumento que contrapõe essa ideia que ficou após esse final. Todas elas acabaram em uma posição de poder que subverte sim esse mundo tão patriarcal, mas quando vemos a conclusão de uma personagem considerada rainha e sendo construída para essa finalidade por tanto tempo, não é muito difícil imaginar a que conclusão a história dessas três personagens pode chegar...

 É claro que também é possível entender que não podemos cobrar uma subversão tão milagrosa de um mundo tão injusto como o que a série apresenta, mas quando isso é sugerido durante toda a série e de várias formas, é provável que a esperança apareça, não é? E os roteiristas sabem muito bem disso.

O fim de Daenerys também pode ser entendido como uma subversão de toda forma, compreendendo que eles quiseram provar que mais uma vez, uma bela jornada não significa um final feliz ou uma redenção e que esse mundo é tão injusto e complexo que na verdade sempre funcionou dessa forma e é provável que continue assim por muito tempo. Vendo por essa lógica, dá pra encontrar facilmente o quanto a série não fugiu de sua proposta principal. Apenas a maneira como isso foi encaminhado nesses dois últimos anos e ainda mais especificamente nos dois últimos episódios, não encaixa com o roteiro que conhecemos por tanto tempo.

Ver Jon Snow como um herói intocável quando se trata da morte não foi uma surpresa, seus atos finais também nem tampouco. É totalmente da construção desse personagem, sacrificar tudo pelo bem de todos, inclusive ir de encontro a sua própria vontade, ainda que nem ele compreenda qual é. O fim agridoce que foi prometido há tanto tempo, de fato aconteceu e o personagem foi a síntese perfeita desse.

Nessa última temporada em específico, com a escolha da forma como sua narrativa final seria apresentada ao público, Game of Thrones provou que a trama política é a sua síntese, mesmo que essa caracterize a série perigosamente como uma narrativa sem coragem e que volta para o mesmo lugar que iniciou-se. O fato é que, deu pra entender qual era a finalidade dos roteiristas, porém não a maneira como isso foi feito. Usar uma falsa subversão de papeis em cima de um tema tão real e importante para criar a mesma sensação na própria história, talvez tenha sido o maior erro da série, ainda que isso não comprometa sua qualidade final.

No fim, a inteligência do homem venceu como uma revolução de toda forma. Essa revolução esteve em Tyrion e sua inteligência o tempo inteiro. Lá nos primeiros episódios da série, o personagem já nos explicava o porquê: “Quando você me olha o que você vê?” perguntava ele a um confuso Jon Snow, que nos dava a resposta que todos tínhamos até então.

O Lannister nos provou que ter sabedoria para lidar com as pessoas era a maior dádiva para ficar vivo dentro desse mundo tão cruel e injusto. Isso foi literalmente provado várias e várias vezes dentro da série.

Porém, falando em injustiça, talvez a maior tenha sido feita pelo próprio roteiro, com a conclusão de jornadas semelhantes do ponto de vista de pessoas que sofreram com as ações de seus pais cruéis quando suas jornadas terminam e apenas uma delas, é julgada por seus atos e curiosamente não consegue atingir o objetivo de mudar o mundo, corrompido pela mesma que se não morresse já teria perdido de toda forma. Daenerys morreu dentro da história quando perdeu o conceito do que significava tirania e é compreensível toda a construção que a levou a isso, ainda que mal feita e não condizente com o que vimos na maior parte de sua jornada.

Nas últimas temporadas, Tyrion teve sua jornada ofuscada pela Rainha dos Dragões, perdendo tanto as características que fizeram o público o venerar assim como seu poder no desenrolar história. O personagem teve seu momento de volta a superfície justamente na derrocada de sua oponente narrativa e isso não é problema, até, mais uma vez, analisarmos como isso foi feito.

O Lannister cometeu inúmeras traições, foi preso com execução iminente, incitou a morte da rainha e ainda assim quando isso acontece, consegue se safar com um discurso que milagrosamente mudou a narrativa instantaneamente, indo de prisioneiro a mão do rei e manipulando todos fazendo-os acreditar mais uma vez que eles simplesmente não o salvaram da morte. Quantas vezes vimos o personagem fazer isso? Como disse antes, inúmeras.

Porém dessa vez e principalmente em se tratando da decisão mais importante da série, a estratégia de sobrevivência foi má construída e decepcionante para um personagem que sempre combinou tão bem com o roteiro inteligente. Além disso, tonalizar as cenas seguintes com um humor que pareceu ter a pretensão de nos dar um ar de nostalgia para os primeiros anos de política na série, não funcionou e ainda pareceu desrespeitoso.

No entanto, o final inesperado realmente veio e foi corajoso, mas poderia ter sido brilhantemente bravo e infinitamente melhor se não tivesse desvirtuado a jornada de personagens tão importantes com finalidades narrativas tão pobres para eles, visto que a construção para esse fim específico, não foi tão bem feita.

Ainda assim, arrisco dizer que esse não foi nem de longe um fim ruim, apenas um episódio ruim e uma conclusão que não chega ao mesmo nível de sua jornada. Em um contexto geral tivemos o que sempre imaginamos, um fim cruel e agridoce assim como a série sempre se mostrou. O verdadeiro final está na junção da temporada e como ela foi montada provando que o seu verdadeiro inimigo não era quem esperávamos e subvertendo todas as nossas expectativas com mais um golpe fatal de narrativa, só que dessa vez, fomos nós a maior vítima, pois agora não temos o próximo episódio pra nos ludibriar.

HIGHLIGHTS:

1 – Daenerys aparecendo pela primeira vez após sua "conquista" com o simbolismo perfeito de que o dragão acordou

2 - Brienne completando os feitos de Jaime Lannister nos livros dos Cavaleiros foi lindo

3 – A cena de abertura com King’s Landing destruída, crianças mortas e pessoas ainda vivas e queimadas caminhando sem rumo

4 – A profecia da casa dos imortais se cumprindo com a menção à cena em que Daenerys vê o trono de ferro coberto por neve com tudo em volta destruído e por fim não conseguindo sentar

2x10 "Valar Morghulis"
8x06 "The Iron Throne"

5 – Drogon destruindo o trono, esparramando no chão o maior símbolo das guerras dentro da história, provando pra gente que realmente chegamos ao fim

6 – Jon Snow reencontrando Tormund e o Ghost

7 – Os Starks despedindo-se mais uma vez e Maisie Williams arrasando nosso coração de uma vez por todas

8 – A teoria em que todos escolhemos acreditar de que Drogon na verdade levou Daenerys para ser ressuscitada.

Confira as reviews dos outros episódios:

8x01: Winterfell

8x02: A Knight of The Seven Kingdoms

8x03: The Long Night

8x04: The Last of The Starks

8x05: The Bells