Um novo apocalypse

A quebra de expectativas sempre foi a maior característica de Game of Thrones e é a prova do porquê, desde que a cabeça de Ned Stark foi arrancada, tornou-se um marco mundial como não acontecia há muito tempo. No entanto, narrativamente falando, essa é uma ideia que é mais compreensível com o tempo, pois no momento em que acontece o choque é maior que qualquer outra coisa e é bem provável que a insatisfação ou decepção, também.

Esse foi um episódio que não nos poupou em nenhum momento. Direto e conciso na maioria das cenas, eu diria que em se tratando apenas do roteiro desse último, desconsiderando os detalhes da história que fez a gente chegar até esse ponto, tivemos um dos melhores da série inteira.

Decisões difíceis, mortes e destruição nem sempre roubam a cena, mas dessa vez combinaram perfeitamente com a tensão construída tão bem no episódio anterior.

Os aspecto técnico chegou a ser brilhante. As cenas da Arya em meio a destruição de King’s Landing, incluindo um plano-sequência muito bem ensaiado, foi marcante assim como a contraposição de seu parceiro O Cão, na sua luta final com seu irmão zumbi, em meio a destruição da Fortaleza Vermelha. Ambas as cenas nos inundaram de perfeição com uma fotografia incrível.

O clima de juízo final foi tão forte quanto no episódio 3, "The Long Night", mas apareceu aqui de uma forma completamente diferente, provando como a narrativa dessa série em específico consegue ser um perfeito camaleão e se transformar rapidamente, nos convencendo a continuar acompanhando a história e não nos prendendo ou apoiando-se na grandiosidade do que já foi feito.

A atuação de Emilia Clarke e seu olhar extremamente expressivo nunca foi tão essencial para a narrativa, mesmo em um momento tão breve, assim como mais uma vez a presença de Lena Headey e sua Cersei completamente deslocada e sem saber o que fazer a seguir, algo que não víamos há muito tempo.

Em um episódio tão significativo, conseguimos encontrar alguns pontos fortes de contradição que podem quebrar expectativas por ser o penúltimo da série. Isso é completamente normal e esperado. Esses pontos estão ligados a construção estrutural de alguns personagens específicos e da própria série em si, ao longo dos anos, mas ainda assim, quando o contexto apresentado é calmamente analisado fica mais fácil compreender algumas conclusões assim como discordar ainda mais de outras.

A série parece saber que alguns desfechos simplesmente não seriam aceitos, mas quando se leva em conta uma narrativa tão complexa no quesito número de personagens e detalhes, é provável que isso acabe acontecendo.

Daenerys, Rainha louca ou um Dragão?

A grande virada de Daenerys Targaryen finalmente aconteceu nesse episódio e mesmo que, aparentemente segundo os roteiristas principais, David Benioff e D.B Weiss nós já tivéssemos visto alguns sinais há muito tempo, a consequência da possível loucura manifestada pela personagem no último domingo foi uma surpresa momentânea para a maioria das pessoas que a acompanharam desde o começo.

Já no início do episódio, fica clara a sensação de urgência narrativa e que agora não há mais tempo pra brincadeira. Varys está tentando matá-la por envenenamento enquanto ela se nega a comer, pois sabe que isso é uma grande possibilidade e isso não porque esteja louca e sim porquê conhece o inimigo muito bem. As consequências não demoram muito e o mestre dos sussurros é morto antes do sol raiar, em uma cena particularmente muito bonita que usou a iluminação ou a falta dela, da melhor maneira possível.

É importante entender que a antes Rainha dos Dragões e tão cheia de títulos e vitórias, está no ápice de sua decepção com aqueles que estão ao seu redor. A desilusão em seu olhar é mostrada como um plano de fundo para os seus atos futuros. A situação de Jon Snow é contraditória mais uma vez aqui, pois depois de trair a confiança de “sua rainha”, tão rápido volta para debaixo de suas asas e diz que a ama. A cena em questão, foi um simbolismo direto para finalmente termos um presságio (muito ruim ou não) do que iria acontecer dali pra frente.

 Daenerys fitando o vazio, o fogo sempre presente em cada close nos seus olhos e sua frase final após ser rejeitada mais uma vez: “Que seja pelo medo, então”, deixaram claros: A conquista viria, ainda que apenas desconfiássemos do preço.

A rainha dos dragões entendeu que seu reinado não seria amado como sempre sonhou ou como já havia sido até então. O sonho de Mhysa ficou lá em Meeren, em Westeros isso está longe de acontecer.

As perdas recentes também funcionaram como um catalisador, pois se pararmos pra comparar o que ela perdeu desde que conquistou tudo que era suficiente pra vencer o trono de ferro ao menos pela força, não é nem um pouco difícil de entender porque estamos nesse ponto da história. Mais uma vez, ela tinha tudo e ainda assim desviou-se de seu objetivo para ajudar um desconhecido, perdeu assim metade de um exército inteiro, seus dois filhos, seu maior conselheiro, uma amiga fiel e ainda assim não foi contemplada com confiança por exatamente ninguém daquele lugar. Não que não soubéssemos antes que esse é o jeito que Westeros funciona. Assim como é estranho ver a personagem usando as mesmas táticas de conquista no mundo que conhecemos e por isso humanizamos, também é estranho vê-la não tendo o mesmo reconhecimento só pelo fato de estar pisando em um continente onde é considerada estrangeira e perigosa.

Game of Thrones sempre foi uma série onde núcleos totalmente distintos se encontravam na narrativa final não necessariamente pela interação direta de seus personagens em si, e sim, pelo enredo que os conectavam. Com o fim da história chegando, essa interação direta tinha que acontecer de alguma maneira e com isso, alguns efeitos colaterais acabam ficando mais evidentes. Nesse caso, o desenvolvimento de alguns personagens específicos que anteriormente eram tão bem preparados, pois estavam cada um em seu nicho de destaque, foi o maior prejudicado.

Sabemos do histórico de loucura que envolve a família Targaryen, isso nunca foi um segredo na série. Porém, Daenerys sempre foi vendida como alguém que subvertia o comportamento que seria destinado para ela. Ainda que em alguns momentos específicos, essa característica tenha aparecido para lembrarmos da identidade da personagem. Não é compreensível, usar alguns desses momentos completamente fora de contexto para tentar justificar a ação dela no ataque a King’s Landing. No minidocumentário sobre o episódio, os showrunners, D&D disseram que a decisão da personagem de cometer um genocídio foi fruto não só do contexto que ela estava vivendo e sim de um insight dos seus antepassados que a fez lembrar de tudo que eles construíram e perderam, fazendo-a tomar a decisão final.

Toda a construção do episódio, do roteiro a montagem de cenas, foi feita para o espectador entender a personagem, como um símbolo negativo e vilanesco de uma jornada que deu muito ruim no final. As mulheres e crianças correndo para dentro da Fortaleza Vermelha, o close na mãe e na filha que com toda certeza iriam morrer até o fim do episódio, os momentos de desespero da Cersei, a contradição de Jon Snow dentre tantos outros, pintaram a Mãe dos Dragões como a maior ameaça presente na série e que por isso precisa ser exterminada.

A série sempre introduziu a Targaryen como um sinônimo de coragem e sensatez, mesmo que com algumas exceções a respeito do segundo aspecto. A personagem talvez seja a maior colecionadora de cenas grandiosas que provaram ao longo das temporadas e de sua construção, que ela era o nome mais verossímil a sentar no trono e não porque sua linhagem dizia isso ou a colocava nesse lugar como um privilégio, mas sim justamente pelo contrário: sua força, determinação, astúcia e confiança em seus instintos, mesmo quando tudo parecia que iria dar errado. Todas essas características serviam como uma subversão a todos os outros personagens (os vivos ao menos) que declararam até então seu interesse pelo trono. Ela era a única que realmente preocupava-se em trazer um novo conceito de sociedade, pensando no bem da população e buscando a quebra do sistema, algo sempre citado.

Dá pra entender que fazer a personagem tomar uma decisão tão contraditória e distante de sua identidade pode ter sido um recurso de ironia. Um genocídio cometido pela Mãe do povo talvez tenha sido a forma de Game of Thrones nos dizer mais uma vez, o quanto a busca pelo poder pode corromper qualquer pessoa. Porém, o fato é que vimos a personagem sendo desenvolvida como uma conquistadora, que pensa em suas ações, as grandiosas ao menos e usar simplesmente a interpretação de que ela perdeu a cabeça num momento tão específico simplesmente não encaixa.

O que deu pra entender, baseado em sua história e construção por todos esses anos e considerando também todas as possíveis reviravoltas que a série possa criar, foi que a decisão de ir em frente queimando toda King’s Landing após a rendição incluindo os inocentes, pode até ter sido fruto do momento e de tudo que tinha acabado de acontecer, mas com toda certeza, também foi algo premeditado pela personagem e aquele rápido e único momento  que vimos sua expressão em cima do dragão, foi apenas a personagem tomando coragem pra seguir com sua decisão. O medo foi sua escolha final, então pelo medo seria sua conquista. O medo de um dragão.

 Além de seguir o conselho de Olenna Tyrell, Daenerys fez o que na maioria das vezes deu certo em suas conquistas, seguiu o próprio instinto e não pediu o auxílio de ninguém e ainda assim o momento de reflexão, mesmo que rápido, serviu pra gente entender que ela não estava ou está louca mas entendia perfeitamente o impacto do que estava prestes a fazer.

No entanto, a construção da imagem da antes heroína dentro desse episódio, reforçou todos os possíveis indicadores narrativos de que sua jornada provavelmente não termine bem no próximo e último da série. O ponto de vista de Arya vendo todo o sofrimento causado pela Mãe dos Dragões foi o acréscimo certeiro para o espectador ficar confuso por quem torcer, ou no mínimo, tentar compreender suas últimas ações. Nesse ponto a dúvida maior é se a subversão do roteiro irá ser na destruição da maior jornada da série com a morte da personagem, ou se seria exatamente o contrário, a mantendo no poder e finalmente fazendo-a realizar seu maior sonho e fazer todos os outros enxergarem qual era o seu objetivo final.

The Bells” correspondeu às expectativas como um episódio grandioso, apresentando um enredo direto, dinâmico e eletrizante. Com o estilo perfeito da série, nos jogou uma narrativa sem muitos rodeios mas nos fez esperar pela reviravolta da maneira mais maldosa possível. Com alguns efeitos colaterais causados pela complexidade do universo da história, o roteiro entrega uma trama satisfatória e nos faz querer esperar pelo fim, de um jeito ou de outro.

HIGHLIGHTS:

1 - O cleganebowl finalmente acontecendo e a melhor frase de todas ditas pelo Cão: MORRE, CACETE! 

2 - A despedida final de Arya e Cão

3 - Cersei finalmente aceitando que perdeu

4 - O fogo selvagem explodindo após Daenerys incendiar à cidade como uma lembrança do Rei Louco que queria matar todo mundo queimado o espalhando pela cidade ou também pode ser uma referência a própria Cersei que de fato chegou a matar uma boa quantidade de inocentes com o mesmo "artifício" rsrs

5 - O desespero das pessoas gritando para que o sino tocasse, um momento arrepiante.

6 - RIP, Cersei, apesar da sua morte não ter sido tão icônica quanto a personagem foi bom saber que Lena Headey ganhou EM TORNO de 1 milhão por episódio pra ficar na janela bebendo vinho e sendo perfeita

7 - Jamie Lannister, aqui jaz o desenvolvimento e trajetória de um personagem

Leia as outras reviews da temporada:

8x01: Winterfell

8x02: A Knight of The Seven Kingdoms

8x03: The Long Night

8x04: The Last of The Starks