Questionar o mundo ao redor. O ato mais sincero de uma geração carregada de medo e culpa se esconde atrás de uma convicção duvidosa de que somos autênticos e autossuficientes o tempo inteiro. Acreditamos numa visão de mundo da qual protagonizamos. Cada qual com sua trajetória, com sua carta de merecimento e toda aquela ideia rasa de que vencemos algumas coisas na vida. Mas bem lá no fundo aquela voz que sussurra todas as noites parece querer fazer doer de propósito com toda a sua certeza de que nada disso importa. As nossas relações, nossa moral, nossos medos...

Nada disso é real. Não somos nada, não temos nada, mas ainda somos tudo e temos tudo. Um eterno ciclo de paradoxos que nos adoece e nos distancia de toda aquela fábula sobre a vida e o amor. É nesse contexto indiscutivelmente atual que BoJack Horseman está inserido. Um mar de incertezas e falsas convicções que alimentam a nossa parte mais egoísta e sombria, abraçando com força o vazio existencial que assombra a todos nós. 

Desde seu primeiro episódio, a série martela em questões inerentes a nossa convivência em sociedade. Irônica ao extremo, o texto nunca se omitiu de debater sobre a vida e a morte de forma clara e sem floreios.

BoJack, à princípio, parece um personagem distante da nossa realidade, já que possui dinheiro e fama. Mas com um curto período de tempo, começamos a perceber que somos parecidos quando diz respeito as suas falhas e inseguranças. É nesse ponto onde percebemos o quão fascinante é a mente humana e seus conflitos, e como o astro de Horsin' Around está imerso até o pescoço nessas questões. 

A estrutura do arco central da série é bem simples. Nos anos 90, BoJack foi a estrela da série Horsin' Around, mas passados vinte anos de seu término, ele ainda é reconhecido na rua, no entanto, o auge da sua fama foi enterrado junto com o programa de tv. O que restou foi dinheiro e suas memórias daquele tempo onde tudo parecia ser mais fácil. Com isso, BoJack precisa encontrar uma forma de tocar a vida e de viver o pós-série, ao mesmo tempo em que tenta ser relevante para o mundo do show business, pois sabe que tudo é esquecido num piscar de olhos em Hollywood. 

A complexidade das emoções é o pilar principal que sustenta todas as reflexões filosóficas com um humor ácido e corrosivo que intensifica ainda mais todo o sentimento de incompatibilidade com o mundo. 

Cada episódio é um mergulho ainda mais sombrio em um poço que parece não ter fundo, e a cada nova temporada vamos nos deparando com reflexões que conseguem expandir tudo o que já sabemos de cada personagem e de cada conflito que eles têm. O uso de drogas para fugir da realidade e a nossa dificuldade de aceitar que nós, enquanto pessoas, somos insignificantes perante o universo nos levam para uma cadeia de pensamentos sobre cada passo que damos na vida, e também sobre cada pessoa que está ao nosso lado. 

A série se sustenta em duas vertentes de filosofia: Niilismo e Existencialismo.

O Niilismo é o ponto de vista que considera que as crenças e valores tradicionais não possuem fundamentos ou qualquer sentido na existência. Essa filosofia se sustenta no pessimismo e no ceticismo. Ou seja, um sujeito niilista não crê em verdades absolutas e não enxerga qualquer razão para sua existência, e isso basicamente compõe BoJack, que apesar de seu dinheiro, não consegue deixar de se sentir vazio, e entramos aqui em um dos pontos mais fortes de toda a série, já que na maioria das vezes, ele acaba usando isso como uma desculpa para não assumir as suas responsabilidades. Ele constantemente joga a culpa na sociedade pelos seus problemas e falhas, assumindo que é um fruto dessa convivência podre, sendo assim, impossível de ser responsabilizado pelos seus atos. 

Também podemos dizer que é uma espécie de barreira que o impede de encontrar essa tal felicidade que todos dizem, uma vez que para ele, nada na vida faz sentido e que a existência é apenas uma consequência sem sentido de alguma coisa que na verdade não importa. 

Com todas essas convicções, dinâmicas interessantes levam a série adiante. Todd, o mais próximo que BoJack tem de um amigo, é uma pessoa completamente otimista, mesmo não sendo bem sucedido ou tendo um lugar cativo na sociedade. A diferença entre os dois, é que Todd preenche os vazios da vida com pequenas tarefas, que acabam distraindo sua mente e isso o leva a viver dia a dia, tendo momentos de “sorte” onde o universo parece querer ajudá-lo e até mesmo entregar algumas coisas em suas mãos. É assim que ele acaba abrindo uma loja de Halloween fora de época, ou construindo sua própria versão da Disneylândia. Essa forma tranquila de levar a vida abre espaço para uma outra vertente filosófica: O Existencialismo. 

O Existencialismo trabalha a ideia de que o indivíduo é o único responsável pelo significado da sua vida. Ou seja, se esse indivíduo não acredita em um Deus, cabe a ele, através de suas ações, buscar o propósito de sua existência. Seguindo por esse caminho, BoJack continua decepcionando as pessoas, não porque essa é sua essência, mas sim porque no fundo, mesmo que inconscientemente, ele escolheu ser assim, narcisista, amargo e convicto de que nada importa. Já que segundo essa vertente filosófica, ele é o único responsável pela sua própria infelicidade, e não deveria culpar as drogas ou a bebida por algo que é sua escolha.

Não é o álcool, nem as drogas, nem nenhuma das merdas que aconteceram na sua carreira, ou quando era criança. É você. - Todd. 

BoJack Horseman é uma constante busca pela felicidade. Cada personagem lida com isso de uma forma diferente. Cada um deles com uma perspectiva que se difere e nos ajuda a entender melhor a nós mesmos através de diversas reflexões. 

A Princesa Carolyn tenta se desviar dessa culpa através de uma carga excessiva de trabalho, e assim acaba se sentindo parte do universo, principalmente quando consegue ajudar alguém, pensando que aquilo a fará se sentir bem consigo mesmo, e faz por alguns minutos. Mas essa satisfação pessoal acaba quando ela se olha no espelho e tenta encarar a mulher - gata - que se tornou. Não se reconhece por alguma vezes, ou na maioria delas não se sente o suficiente, e trabalha mais e mais como se fosse a única forma de não perder tempo com pensamentos sobre a vida.

Sr. Peanutbutter é o retrato da distração total. A sua completa felicidade que dura o tempo inteiro ocupa o espaço que seria responsável por refletir sobre sua posição no mundo. Mas ainda assim, mesmo sendo o personagem mais feliz da série, ele vem expressando uma certa angústia ao longo das temporadas e acaba percebendo que a felicidade que o preenche por inteiro, pode ser a forma mais intensa de mascarar toda a tristeza e insuficiência que o habita. 

Todos estão em busca da felicidade e nenhum deles parecer conseguir isso. Até mesmo quando BoJack consegue ser indicado ao Oscar, e pensava que aquilo finalmente o deixaria feliz, ele se sente insuficiente, normal, o mesmo de sempre.

O nosso despreparo ao confrontar nosso desejos e nossa posição no mundo é um retrato de uma geração que tem acesso a todo tipo de informação na palma da mão, mas também não é exclusiva. Jovens e velhos, cada um de nós está em uma busca constante que não apresenta resultados concretos.

BoJack Horseman é um experimento e tanto para nos ajudar, ou pelo menos nos fazer pensar sobre isso e reavaliar nossas convicções. A conexão da série é incrível com todo mundo que já viu de perto, abraçou ou sentiu por um mínimo instante que seja, o vazio existencial. Apesar de funcionar para todos, aqueles que já passaram por algo semelhante em alguma escala, tem uma imersão diferenciada na série. Cada frase do texto pode ajudar a entender a si mesmo como parte de um mundo maior e ajuda também a se perdoar e saber que está tudo bem se não souber para onde ir ou o que te faz feliz. Talvez a vida seja isso mesmo: uma busca constante. 

Somos todos feitos de certezas, medos, inseguranças, falhas, alegrias e tristezas. Somos a prova de que o universo está em todos nós e que havendo ou não um sentido para tudo isso, somos tudo e nada ao mesmo tempo. Podemos aproveitar como quisermos, entendendo que há consequências e que nem sempre poderemos culpar a sociedade por tudo.

O mundo cria monstros, mas também cria luz e isso está presente em cada etapa da nossa vida. Nunca é tarde para tentar mudar, mesmo que pareça impossível, inalcançável ou sem sentido, precisamos apenas tentar e tentar. BoJack entendeu isso e fez sua parte na mudança. O primeiro passo é sempre refletir sobre si mesmo e é sobre isso que BoJack Horseman fala. 

fica mais fácil a cada dia. Mas você tem que correr todo dia, essa é a parte difícil. 

Um dos pontos incrivelmente fortes da série ao longo das seis temporadas, foi sua capacidade de ousar nos formatos em alguns episódios específicos, como quando BoJack vai para uma cidade no fundo do mar e não temos nenhum diálogo, ou quando ele está em um funeral e o episódio é todo como um plano sequência acompanhando um monólogo no mesmo cenário. 

As cinco temporadas anteriores tiveram suas marcas, seus conflitos e dramas que arrancaram lágrimas e elogios, e o anúncio da sexta temporada como a última, deixou os fãs desolados, mas se entendia que a trama precisava de um final, que pode até ter sido mais cedo que o necessário, mas ainda assim, era preciso. A jornada do cavalo precisaria se completar e caminhar para uma conclusão que unisse todas as etapas e transformações do personagem. 

O formato e abordagem escolhido para esse final foi bem tradicional. Seguimos por diversos flashbacks que nos ajudam a contextualizar e entender ainda mais todos os passos, escolhas e erros que levaram BoJack ao ponto que estávamos. Com isso, revivemos alguns momentos por outros ângulos ou expandimos aquelas informações que já conhecíamos parcialmente. O fato é: Mesmo entendendo BoJack, o texto continuou a evitar torná-lo vítima de uma sociedade doente. O próprio BoJack consegue entender que se há um culpado é ele próprio, e que a vida deve seguir em frente mesmo que seja difícil.

Nessa parte, uma das personagens mais complexas e equivalentemente interessantes como o protagonista, Diane, é muito bem explorada. Depois de tudo o que passou ao lado de Peanutbutter e principalmente Bojack, Diane é colocada cara a cara com aquilo que sempre tentou evitar. O fato de que deve se acostumar com a tristeza e que sua depressão é fruto dessa busca constante pela felicidade. Ela sempre acreditou que era especial para para o universo, e que todas as suas lutas, suas tristezas e mágoas tinham uma razão especial e que faria sentido ao final de tudo, quando ela finalmente conseguisse ser feliz. Mas a verdade é que ninguém é cem por cento feliz, nem mesmo seu ex-marido. 

Os episódios mais próximos do fim nos mostram a verdadeira Diane. Aquela mulher autêntica e forte que foi sugada por uma angústia profunda e se deparou com a depressão, e não deixou de ser forte por causa daquilo. Ela conseguiu ficar tranquila com os remédios fazendo efeito, mas também teve crises de abstinência quando se deu conta que os medicamentos dopavam a melhor parte de si, a crítica e criativa. Nos mostrou sua negação a ter ajuda, mas também mostrou que está tudo bem aceitá-la e que ninguém deve viver sozinho por se achar um lixo. Sempre vai haver alguém que conseguirá ver o melhor de você. Diane entendeu que nem sempre haverá um final feliz ou final triste. As vezes é só um final. 

A Princesa Carolyn, protagonista de um arco que desde o início da série era poeticamente feminino e abraçava as lacunas na vida de uma mulher moderna e forte mas que também podia chorar todas as noites quando chegava em casa, se encerrou com maestria. Ela finalmente encontra seu lugar no mundo, e para sua surpresa, estava bem diante de seus olhos, mas essa busca insana pela felicidade sempre a levava a buscar longe, como se fosse impossível conviver diariamente com sua razão de ser feliz. Mas para que pudesse encontrar a felicidade, Carolyn teve que aprender a se gostar primeiro, a lidar consigo mesmo e entender que era completamente autossuficiente e capaz de ter o mundo nas mãos. 

Ao redor de todos esses conflitos, BoJack. O retrato fiel de uma geração moldada no medo. Uma geração que tem tudo e nada ao mesmo tempo. Jovens adultos confusos e perdidos nesse mundo imenso. Indivíduos que precisam lidar com a culpa e consequência de ser quem são. Incapazes de apagar o passado e seguir em frente, mas indivíduos que tentam e querem ser algo mais. Querem ser felizes, mas não sabem por onde começar.

O cavalo que muito mudou durante as seis temporadas, precisava apenas aprender a assumir os próprios erros e lembrar que não existe uma fórmula certa para viver, nem uma fórmula mágica para ser feliz. Como Diane aprendeu, não existem finais felizes ou tristes. Na maioria das vezes são só finais. E também não há sempre um grande motivo para tudo ou uma moral da história. Viver é lidar com o caos que o mundo é.

É errar, é se destruir, mas é renascer. É ver que a jornada da vida é uma caminhada longa e que às vezes iremos cair. O mundo não é perfeito, e também não temos a obrigação de ser.  Nossas palavras podem ferir as pessoas, mas ao invés de nos culparmos, podemos pedir desculpas e aprender com isso.  

Um passo de cada vez. Um dia após o outro. Encarando sempre o nosso reflexo no espelho e se orgulhando de cada marca no nosso corpo. Cada lágrima derramada, cada gota de sangue no chão, cada dor que nos faz sentir vivos. A vida pode ser boa, pode ser isso. Pode ser apenas uma etapa, um momento breve, ou pode ser tudo. Pode ser a nossa chance de encontrar a felicidade, mas também pode ser a chance de fazer a nossa felicidade. Podemos questionar o mundo ao redor e procurar nosso lugar no mundo. Podemos escolher ser uma extensão do universo ou não. Somos donos do nosso destino, e o que nos aquece é chegar lá no final, e poder dizer que foi bom enquanto durou.